Sabrina Noivas 31
Stop The Wedding!

O noivo  uma cobra: Matt nunca tinha pensado em casamento. Afinal, a vida de solteiro que levava era tudo o que pedira a Deus! Nesse exato momento, tudo o que queria era impedir que sua irm cometesse a besteira de se casar.
A noiva  insistente: Kristi Beeler no via a hora de encontrar sua "cara-metade", constituir famlia e ser amada para sempre.
O tempo est se esgotando: Ao propor a Kristi fingirem estar apaixonados, para que a irm dele visse como era o amor verdadeiro, Matt jamais pensou que ela fosse aceitar... Quando Kristi concordou, os jogos comearam. Em pouco tempo, porm, ele percebeu que, se no tomasse cuidado, o casamento que teria de deter seria o dele!

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1995.   Publio original: 1994
Gnero: Romance contemprneo.   Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I

No consigo imaginar o que aconteceu  disse a garota morena, sentada diante da mesa de Kristi Beeler. Olhando mais uma vez na direo da porta, exclamou:  Matthew nunca se atrasa. Ele sempre chega antes de mim, quando combinamos de nos encontrar.
Kristi consultou o relgio e decidiu no perder mais tempo. Dentro de dez minutos, teria de fechar a loja:
	Enquanto estamos esperando seu irmo, voc poderia me dar algumas informaes a respeito da cerimnia de casamento que pretende.  Retirando a caneta do bolso, ela alcanou o formulrio sobre a mesa e indagou:  Seu nome  Alice, no?
A garota morena aquiesceu com um gesto de cabea, antes de acrescentar:
	Alice Stewart.
	Certo.  Kristi anotou o nome e indagou em seguida:  E seu noivo, como se chama?
	Bruce. Bruce Kline. Ele adoraria estar aqui, para tratarmos disso junto. Mas teve de viajar para Oklahoma, a trabalho. Na verdade, ter de ficar por l durante dois meses, fazendo um curso para gerente de vendas. E ele no pode perder essa oportunidade, entende?
	Claro.
	Bruce  to inteligente. Tenho certeza de que far uma carreira brilhante, nos negcios.
Kristi assentiu com um gesto de cabea, enquanto Alice continuava falando sobre o noivo, com um entusiasmo crescente... E sem interrupo. Depois de vrios minutos, Kristi tentou traz-la de volta ao tema da conversa:
	Bem, vamos nos concentrar no seu casamento...
	Ah, sim. - Alice sorriu.  s vezes falo demais sobre Bruce...  que estou perdidamente apaixonada, sabe?
Sorrindo, Kristi aquiesceu:
 Isso  muito bom, Alice. Bem, agora me diga: quando pretende se casar com Bruce?
	O mais rpido possvel.  E apressou-se a explicar, num tom divertido:  Ei, no pense que estou grvida.
	Isso nem me passou pela cabea, Alice  Kristi retrucou, um tanto surpresa.
	 que meu irmo Matthew andou insinuando certas coisas...  Aps uma pausa, Alice continuou:  Sabe,  que no posso perder Bruce. Ele  homem por quem esperei durante toda a minha vida.
Kristi tornou a assentir com um gesto de cabea. Por quantas vezes j no ouvira aquela frase! Este era um dos motivos pelos quais a vida de uma consultora matrimonial valia a pena. Consultando o formulrio a sua frente, ela fez a prxima pergunta:
	Agora diga-me, Alice: que tipo de cerimnia voc pretende fazer?
   A garota refletiu por alguns instantes, antes de responder:
	Ainda no estou bem certa. Se for uma cerimnia apenas para a famlia, ser bem simples. De minha parte, os convidados seriam apenas meu irmo Matthew e eu. Quanto a Bruce, a famlia dele mora na Philadelphia. Creio que os pais dele viro, bem como alguns parentes mais prximos. Mas no sei calcular quantos convidados teramos.
	Uns vinte, talvez? - Kristi indagou.
Ignorando a pergunta, Alice prosseguiu:
	Por outro lado, se eu convidar as pessoas que trabalham na empresa de meu irmo, que para ele so como uma grande famlia... Da teramos cerca de cem convidados.
Talvez at mesmo cento e vinte.
	Nesse caso, a cerimnia j no seria to modesta assim  Kristi constatou, depois de anotar o nmero 120 na coluna referente ao nmero de convidados.  E agora temos outras questes.
	Pode falar.  Alice sorriu.
	Voc... J tomou alguma providncia quanto ao casamento?
	Como assim?
	Voc j contratou um padre, alugou uma igreja ou local para recepo?
	No. Minha amiga Maggie, que me indicou voc, disse-me que eu no teria de providenciar nada. Quero dizer, que voc cuidaria de tudo.
	De fato, posso fazer isso. Nosso servio de consultoria matrimonial oferece todos os servios.
	Nesse caso, deixarei tudo a seu encargo.
 Como quiser, Alice.
A conversa foi interrompida por Jane, secretria de Kristi:
	Com licena... Kristi, ser que voc poderia vir at a sala de costura, por um instante? Leslie Smith est experimentando o vestido de noiva e parece que a me dela, a sra. Lillian, quer que faamos algumas modificaes.
	De novo?  Kristi comentou, impaciente.  Mas Leslie tinha gostado tanto do modelo...
	O problema  que sra. Smith teve uma tima ideia para a grinalda  Jane explicou, com uma ponta de ironia.
H vrios dias que a sra. Smith vinha aborrecendo Kristi com sua petulncia. Parecia que nada era capaz de satisfaz-la.
	Voc me d licena por um minuto, Alice?  Kristi pediu, levantando-se e caminhando com Jane em direo  sala de costura.
	Claro. Fique  vontade  Alice assentiu, num tom amvel.
	Estou com vontade de estrangular a sra. Smith  Jane segredou a Kristi, com uma careta cmica.
Calma, garota  Kristi recomendou, contendo o riso. O cliente sempre tem razo.
Mas voc h de convir que essa adorvel senhora est passando dos limites!  Jane reclamou.  J no podemos dizer o mesmo da filha dela, que  um amor.
Vamos enfrentar a fera.  Kristi abriu a porta da sala de costura e ambas entraram.
Armando-se de pacincia, ela ouviu as opinies de Lillian Smith e anotou, num bloco, as modificaes que a velha senhora desejava fazer, na grinalda. Por fim, explicou:
	Vou enviar o pedido  nossa estilista e, daqui a cinco dias, a senhora e Leslie podero voltar aqui, para verem como ficou. Mas quero avis-la, sra. Smith, que no poderemos mudar mais nada, no traje de Leslie. Afinal, a senhora mesma aprovou o modelo, quando apresentei-lhe o esboo, h trs semanas.
	Para mim, estava perfeito  disse Leslie, timidamente.  Mas  que mame faz questo de mudar o estilo da grinalda e...

	Oua o que estou dizendo, criana  sra. Smith a interrompeu a filha.  A grinalda ficar muito mais bonita, com as modificaes que sugeri.
	Mas a senhora tinha gostado da ideia inicial  Jane protestou.
Ignorando o aparte, Lillian Smith encarou Kristi com uma expresso autoritria:
	Leslie  minha nica filha. E eu quero o melhor para ela.
Jane ia protestar novamente, mas Kristi adiantou-se:
	Tudo bem, sra. Smith. Vamos acatar sua deciso. Agora com licena. Estou atendendo a uma nova cliente.
De volta  sala da recepo, Kristi retomou a conversa com Alice:
	Bem, onde estvamos? Ah, sim, falvamos da cerimonia que voc pretende fazer.  Retirando um catlogo da gaveta, estendeu-o a Alice.  Aqui temos uma lista do tipo de cerimnia que podemos oferecer. Quero que voc a estude atentamente e volte, num outro dia, para conversarmos. Da, passaremos a cuidar de outros detalhes.
Interessada, Alice folheou o catlogo.
	Puxa, vocs fazem todo o tipo de festas...
Kristi sorriu, sem ocultar uma ponta de orgulho. De fato, a loja M & K  Consultoria Matrimonial, oferecia uma vasta lista de opes aos clientes.
No incio, a loja era bem modesta, mas com o passar do tempo o negcio fora prosperando. Agora, a M & K era uma das mais procuradas da cidade, pelas futuras noivas.
	Quando voc decidir o tipo de cerimnia que deseja,
falaremos sobre uma infinidade de detalhes  Kristi explicou.  Mas, por enquanto, preciso anotar mais alguns dados a seu respeito.
	A questo  o que meu irmo pensar disso tudo  Alice comentou, com uma ponta de irritao.  Ele prometeu que pagaria todas as despesas do meu casamento, sabe? Mas pelo jeito pensa que isso lhe d o direito de se intrometer em minha vida.
	Como assim, Alice?  Kristi indagou, surpresa.  O que seu irmo tem a ver com sua deciso de se casar?
	Nada. Mas temos discutido muito sobre esse assunto e no conseguimos chegar a um acordo. Matt me acha muito jovem e por isso julga que no sei o que quero.
	Bem...  Kristi ponderou.  Creio que voc deve seguir sua prpria opinio, e no a de seu irmo.
	Concordo plenamente.  Alice sorriu, confiante.  E  exatamente isto que farei: vou me casar com Bruce, a despeito do que Matt pensa de tudo isso.
	Perdoe minha indiscrio, mas... Por que, afinal, seu irmo  contra esse casamento?
	Boa pergunta  Alice retrucou, aborrecida.  No sei o que h com Matt. Ele viu Bruce por apenas duas
vezes e o detestou. Da decidiu que eu no devo me casar.
Ou melhor: ele quer que eu me relacione com Bruce por mais algum tempo, antes de me decidir.
E h quanto tempo voc conhece seu noivo?
Cerca de dois meses, apenas. Mas voc j ouviu falar de amor  primeira vista? Pois foi isso mesmo que me aconteceu. Bastou-me olhar para Bruce, para compreender que ele  o homem de minha vida.
Kristi ficou pensativa por alguns instantes. Alice era muito jovem e imatura. Talvez o irmo dela tivesse razo, em aconselh-la a esperar um pouco mais.
	Com licena  disse Matthew Stewart, ao entrar na loja.       Al, Alice. Perdoe-me o atraso, sim? Tive alguns assuntos urgentes a resolver no.escritrio e peguei um trnsito terrvel, no caminho para c.
	Tudo bem, Matt. Agora que voc chegou, poderemos discutir o tipo de cerimnia que farei. Ah, deixe-me apresent-los. Matt, esta  Kristi Beeler. Kristi, este  meu irmo genioso, que pensa que ainda sou uma criana.
	Voc  uma criana  ele retrucou, num tom severo.
	Eu no disse?  Alice sorriu para Kristi.  Ele nunca parou para pensar no simples fato de que j completei dezenove anos.
Kristi sorriu de volta e ergueu-se para cumprimentar o recm-chegado.
	Muito prazer, sr. Stewart.
. O prazer  meu, senhorita  ele respondeu e, agradecendo com um gesto de cabea ao convite de Kristi para sentar-se, acomodou-se numa cadeira ao lado de Alice.  E ento, por onde comeamos?
	Bem, a princpio preciso fazer algumas anotaes. Kristi fez as perguntas de praxe, anotando nome, endereo e outros dados de Matthew Stewart. Enquanto escrevia, percebeu que ele a fitava com uma intensidade quase incmoda.
Alto, de porte atltico, Matthew era, de longe, um dos homens mais impressionantes que Kristi j vira. Os cabelos negros, levemente ondulados, compunham a moldura perfeita para o rosto de traos msculos e bem proporcionais. A boca sensual, o nariz afilado, a pele bronzeada... Tudo isso fazia de Matthew um homem atraente como poucos.
Mas o que mais impressionou Kristi foram os olhos: eram azuis, lmpidos e profundos.
A medida que ia fazendo as perguntas, Kristi compreendeu que o que realmente impressionava em Matthew no era apenas a beleza fsica. Ele possua uma aura diferente, algo que vinha talvez de um car ter muito forte e...
"Um tanto arrogante", ela decidiu, em pensamento.
Mas por que estava cogitando sobre tudo isso? Afinal, Matthew era apenas um cliente. E sua relao com ele deveria ser estritamente profissional.
	Aqui est o modelo de nosso contrato  disse Kristi, depois de anotar o que precisava.  Quero que o senhor o leve para casa, leia e estude as clusulas com ateno. Enquanto isso, Alice escolher, no catlogo, o tipo de cerimnia que pretende. Marcaremos um dia- para uma nova entrevista, a fim de comearmos a discutir os preparativos.
	Certo  ele aquiesceu, num tom srio.
	Ah, preciso saber mais uma coisa  Kristi lembrou-se. Dirigindo-se a Alice, indagou:  Quando pretende se casar?
	De preferncia, amanh  ela gracejou. E se corrigiu:  Bem, amanh no seria possvel, j que Bruce no se encontra na cidade. Mas, digamos, daqui a um ms.
	Impossvel  Kristi sentenciou.  Todos esses preparativos levam muito tempo.
	Que tal daqui a dois anos?  Matthew props, num tom irnico.
	No me venha com essa conversa de novo  Alice reagiu, aborrecida.
	Se voc tem tanta certeza de que ama seu noivo, no vejo por que no poderia esperar mais tempo  ele rebateu, severamente.  Para que tanta pressa? Tem medo que ele saia correndo?
	Ignorando as palavras do irmo, Alice dirigiu-se a Kristi:
	Diga-me, em quanto tempo poderamos realizar a cerimnia?
	Estamos em maro...  Kristi consultou o calendrio sobre a mesa.  O planejamento depender do tipo de cerimnia que voc escolher.
	No pode nem me dar uma previso aproximada? Alice insistiu.
	Bem... Digamos... Era julho. Que tal?
Mas julho est muito longe  Alice protestou.  No h um modo de apressar os preparativos? Num tom paciente, Kristi explicou:
	Uma cerimnia de casamento implica em muito trabalho: escolha da igreja, decorao, preparao da recepo, entim, uma infinidade de detalhes.
Est bem  Alice concordou, por fim.  Serei uma noiva de julho, ento.
Naquele momento, Leslie e Lillian Smith saram da sala de costura, despediram-se e deixaram a loja. Jane, a secretria, partiu em seguida. Kristi consultou o relgio: eram mais de seis e meia e ela estava exausta. Portanto, o melhor a fazer era dar por encerrada a entrevista.
	Quando voc tiver terminado de estudar o catlogo, ligue para c e marque um horrio com minha secretria, est bem, Alice?
	Certo.  A garota levantou-se.  Vamos, Matt?
	V indo na frente  ele respondeu.  Preciso conversar um pouco mais com a srta. Beeler...  olhando para Kristi, acrescentou  isto , se ela dispuser de mais alguns minutos.
	Claro  Kristi assentiu, num tom polido. Preferiria dizer que estava muito cansada, e precisava ir para casa. Mas no viu outra alternativa, seno concordar. Apenas, gostaria de saber por que Matthew Stewart queria lhe falar em particular.
	Muito bem, sr. Stewart  disse Kristi, assim que Alice saiu.  Estou a seu inteiro dispor.
	Ento, faa-me uma gentileza, sim?  ele retrucou, fitando-a com intensidade.  No me chame de senhor Afinal, no sou to velho assim.
Kristi sorriu, encabulada. No esperava que Matthew iniciasse a conversa daquele modo.
	Est bem... Matthew.
	Assim soa melhor  ele afirmou, sorrindo de volta.
Kristi sentiu de novo a mesma inquietao de minutos atrs. Havia qualquer coisa naquele homem que a intimidava. Mas o que seria?
	Posso cham-la de Kristi, simplesmente?  ele perguntou.
E Kristi no pde deixar de concordar:
	Claro.
	Certo... Kristi.
Ela sentiu vontade de no dizer mais nada. Se pudesse, ficaria fitando aqueles olhos azuis por muito tempo, at descobrir o que, afinal, havia neles de to singular.
Afastando esse pensamento incmodo, ela reassumiu a postura profissional:
__ Agora que j dispensamos as formalidades, sr. Stewart Quero dizer, Matthew. Bem, creio que voc pode me expor o assunto.
Sem titubear, ele comeou:
	Pelo que pude perceber, minha irm ja lhe contou que sou contra a realizao desse casamento.
__ Sim _ ela aquiesceu, reticente.  Mas, para ser franca, eu prefiro no me imiscuir nesse assunto. Afinal, se eu for me envolver nos problemas de todos os clientes...
	Tem razo  ele a interrompeu, com um olhar compreensivo.  Seu trabalho restringe-se ao planejamento e realizao de cerimnias, e no a ouvir os problemas das pessoas.
	Exato.
	Voc vende iluses...  isso, no?

	Iluses?  ela repetiu, surpresa.  O que o faz pensar assim?
	Ora, uma garota ingnua como minha irm vem at aqui, contrata seus servios para uma cerimnia que certamente lhe render um bom dinheiro... E voc realiza o sonho dourado de uma jovem que ainda no tem idade para saber o que realmente quer. Alice acredita que o casamento resume-se numa igreja bem decorada, uma marcha nupcial seguida de uma bela festa e pronto. Esta  uma viso bem distante da dura realidade, no concorda?
	Um momento  Kristi retrucou, ofendida.  Voc est insinuando que eu me aproveito da ingenuidade das pessoas para ganhar dinheiro?
	De uma certa forma, sim  ele afirmou, imperturbvel.
	Acontece, meu caro, que eu no forcei sua irm a vir aqui e me contratar. Eu realizo cerimnias de casamento, de acordo com a vontade de minhas clientes. No vendo iluses. Vendo trabalho, muito trabalho. E no admito que voc me ofenda desta maneira cruel, est ouvindo, sr. Stewart?
	Matthew  ele a corrigiu.
Ignorando-o, Kristi continuou:
	E se voc acha que estou me aproveitando da ingenuidade de sua pobre irm, rasgue este contrato e esquea o assunto, est bem?
	Bem que eu gostaria de esquecer tudo isso.  Ele passou a mo pelos cabelos negros, num gesto que denotava cansao.  Mas de nada me adiantar rasgar este modelo de contrato. Se eu fizer isso, Alice acabar procurando outra loja de consultoria matrimonial, para consumar a bobagem que est prestes a cometer.
	Isto  um problema que s diz respeito a voc e a ela  Kristi sentenciou, num tom rspido. Erguendo-se, acrescentou:  Creio que nossa conversa termina aqui. J passei da hora de fechar a loja.
Matthew levantou-se e Kristi esperou que ele sasse. Mas, ao invs disso, ele indagou, sem rodeios:
	Voc tem um namorado?
	Que pergunta mais absurda!  ela exclamou, espantada com tamanho atrevimento.
	 casada?  ele insistiu.
Kristi contornou a mesa e encarou-o com firmeza:
	Por que acha que eu responderia a essa pergunta?
	E ou no ?
	No sou casada  ela retrucou, furiosa.  E no lhe dou o direito de dirigir-se a mim dessa forma.
	Eu s queria saber se voc entende realmente sua profisso.
 Uma coisa no tem nada a ver com a outra. Se eu fosse seguir seu pensamento, acharia que para uma pessoa ser psiquiatra, deveria necessariamente ter enlouquecido uma dzia de vezes... S assim compreenderia melhor seus pacientes.
	Voc argumenta bem  ele concluiu, um tanto surpreso.
	E voc sabe como irritar uma pessoa  Kristi contraps.
Um pesado silncio caiu entre ambos. Por fim, fazendo um gesto vago, Matthew admitiu.
	Est bem, reconheo que estou parecendo grosseiro...
	E inconveniente  ela completou, com voz spera.
	Tem razo. Descu3pe-me, Kristi. No era este o tipo de conversa que eu queria levar, com voc.  que estou com um problema muito srio, sabe? E s vezes perco o controle.
	Voc no quer que Alice se case  ela afirmou, num tom mais ameno. O fato de Matthew ter reconhecido seu erro a desarmava.   este o problema, no?
Ele respondeu com um gesto afirmativo.
	Gostaria de ajud-lo, mas nada posso fazer  ela prosseguiu.  J tentou conversar com Alice, a respeito disso?
	Claro. Mas Alice simplesmente recusa-se a me ouvir.
	Nesse caso, voc tambm no pode fazer nada, exceto aceitar a realidade: sua irm vai se casar e isso  tudo.
	Infelizmente, voc tem razo. Mas eu ainda no desisti de lutar pelo meu ponto de vista.
	Bem, se voc acha que vale a pena, continue tentando dissuadir Alice dessa ideia. Quanto a mim, no tenho o direito de me intrometer nesse assunto.
	Est bem.  Fitando-a nos olhos, ele desculpou-se.  Perdoe o meu desabafo. Afinal, eu nem sequer a conheo e j me arrogo o direito de lhe falar sobre meus problemas.
	Est desculpado, Matthew  ela respondeu, com um sorriso.
Num tom manso, ele confidenciou:
	 que voc tem um jeito... Diferente. Parece transmitir uma espcie de confiana s pessoas, sabe? Talvez tenha sido por isso que desabafei. - Com um sorriso irresistvel, perguntou:  Ficou muito aborrecida comigo?
	Fiquei.  Ela sorriu de volta.  Mas j passou.
	Obrigado.
Matthew perguntou-se por que no despedia-se de Kristi Beeler para ir embora. Afinal, no havia mais nada a conversar. No entanto, ele simplesmente continuava ali, como que hipnotizado por aqueles olhos verdes, to claros e profundos.
Por um instante, ele sentiu vontade de tocar-lhe os cabelos loiros, para experimentar-lhes a maciez.
"O que est havendo com voc, Matt Stewart?" Perguntou-se, um tanto confuso. "Kristi Beeler pode ser uma pessoa especial, mas  uma mulher. E voc sabe muito bem o que deve esperar delas: artimanhas, mentiras, traio..."
Kristi Beeler quis olhar para o relgio e, num tom gentil, explicar a Matthew que precisava fechar a loja. Sim, tudo o que precisava fazer era pedir-lhe licena e esperar que ele sasse.
Entretanto, algo a impedia de falar. S conseguia continuar ali, os olhos fixos nos de Matthew, como se  espera de que algo acontecesse. Algo que ela no sabia ao certo o que seria.
	As pessoas so muito confusas, quanto aos seus sentimentos  disse Matthew, numa voz estranhamente rouca.
	Como?  ela indagou, sem entender.
	As pessoas no sabem o que fazer de suas emoes mais simples.
	No entendo o que voc diz  Kristi murmurou, invadida por uma sensao inexplicvel.
	Voc j vai entender.
Antes que Kristi pudesse dizer qualquer coisa, Matthew inclinou-se e beijou-a nos lbios.
Perplexa, ela quis compreender o que estava acontecendo, mas no teve tempo. O beijo, que a princpio fora um leve toque, tornava-se agora mais profundo. Exigentes, os lbios de Matthew exploravam os dela, arrebatando-a de si mesma e do mundo ao redor.

CAPITULO II

Kristi tentava manter-se indiferente, ignorando a fora selvagem que ameaava domin-la. Mas era intil. O sangue corria-lhe como fogo nas veias, o corao batia de modo to acelerado, que parecia saltar-lhe dentro do peito. Como era possvel que tudo aquilo estivesse acontecendo?
H apenas alguns minutos, Matthew Stewart nada mais era, seno um ilustre desconhecido... Agora, no entanto, ele a tomava nos braos com tamanho ardor, que era simplesmente impossvel resistir. Como que por um passe de mgica, a intimidade estabelecera-se entre ambos. E isso era, no mnimo, inexplicvel.
Por um instante, Kristi ainda tentou raciocinar. Precisava ordenar os pensamentos e reassumir o controle, o mais depressa possvel. Mas como?
Arquejante, Kristi sentia-se tomada por duas foras contraditrias, mas de idntica intensidade: por um lado, a voz da razo ordenava-lhe que afastasse de si aquele homem. Mas seu corpo, que parecia ter adquirido vontade prpria, recusava-se a obedecer a sensatez. E seus lbios, que deveriam dizer: "pare com isso, Matthew Stewart..." Apenas conseguiam mover-se na intensidade daquele beijo, causando-lhe uma sensao de infinito prazer.
Pressionando o corpo contra o de Kristi, Matthew continuava a beij-la, com uma ousadia que crescia a cada instante. Tambm ele no conseguia pensar. Apenas obedecia agum estranho desgnio, que inesperadamente o jogara nos braos daquela mulher.
As lnguas se buscavam, vidas, como se enviassem men sagens que j nenhum raciocnio poderia traduzir. A lingua gem do mais puro desejo ditava as regras daquele momento
Kristi j no se sentia dona de si. Gessara de lutar, para ceder finalmente ao mundo das emoes. Um mundo onde no havia perguntas ou respostas coerentes. Um mundo que obedecia apenas s razes da magia e do prazer. Tudo o que importava naquele momento era obedecer aos impulsos mais ntimos... E corresponder, com toda a intensidade, aos beijos que se sucediam. Nunca, em seus vinte e oito anos de vida, ocorrera-lhe algo semelhante.
A respirao tornava-se cada vez mais difcil. Mas a sensao que Kristi agora experimentava no era de sufoca-mento, mas sim de plenitude.
Pensar, era impossvel. Deveria ainda tentar obedecer ao bom-senso? Mas o que significava bom-senso, afinal? De um momento para o outro, o cho lhe havia fugido dos ps. E seu corao ditava, soberano, os atos subsequentes.
Finalmente Matthew afastou os lbios dos de Kristi, que manteve-se imvel e ofegante, aconchegada naqueles braos quentes e protetores. Sentia-se frgil como uma colegial que tivesse sido beijada pela primeira vez. E chegava a desejar que aquele momento nunca mais terminasse.
Por isso, sobressaltou-se quando Matthew indagou, com voz ligeiramente trmula:
	Voc... Seria capaz de definir o que  amor?
	Amor? ela repetiu, surpresa. Ora, ningum pode descrev-lo.
	Por que no tenta, srta. Beeler?
A voz de Matthew agora soava agressiva. Sentindo-se totalmente confusa, Kristi perguntou-se por que, afinal, ele estava agindo daquela maneira. Mas antes que pudesse encontrar uma resposta, Matthew tornou a question-la:
	Quer dizer ento que estou diante de uma consultora matrimonial que no sabe o que ...
	O amor  um sentimento profundo  ela o interrompeu.  Uma vontade de estar sempre com uma pessoa, de fazer parte de sua vida. E tambm um sentimento de infinito carinho, ternura e preocupao com o bem-estar de quem se ama.
	Sinto carinho por minha irm e por alguns poucos amigos.  E tambm me preocupo muito com o bem-estar deles  Matthew argumentou, com ironia.
__ Voc no est me entendendo  ela insistiu.  O amor compreende carinho, preocupao, amizade, camaradagem, companheirismo... Mas trata-se de um sentimento diferente daquele que temos por amigos ou familiares.  Escolhendo bem as palavras, concluiu:  Trata-se de um arrebatamento, percebe? De algo que faz com que esqueamos de ns mesmos.
	Mas isso no seria... Paixo?
Kristi refletiu por alguns instantes, antes de responder:
	Talvez a paixo seja o prenncio do verdadeiro amor.
Os olhos de Matthew assumiram uma expresso cruel.
Onde estava o homem que a tomara nos braos com tanto ardor, h apenas alguns instantes? Kristi se perguntou, com um misto de mgoa e espanto. Por que Matthew mudara subitamente de atitude? Nos olhos azuis j no havia o menor sinal de ternura ou desejo, mas sim uma espcie de desafio, que a fazia sentir-se encurralada.
	Como voc faria para distinguir entre o amor verdadeiro e a paixo momentnea?  ele indagou, cruzando os braos.
	No sei...  difcil de explicar, mas...
Ento voc concorda que uma pessoa pode se sentir simplesmente atrada por algum e julgar-se apaixonada... Quando, na verdade, tudo no passou de uma pequena pea que seus hormnios lhe pregaram?
~ Nao sei ~ Kristi repetiu.  Voc est tentando formar um conceito racional sobre o amor. E, na verdade, ele s Pode ser explicado atravs da emoo.
	Por qu?
	Porque uma pessoa  perfeitamente capaz de saber quando est apaixonada. Afinal, mesmo sendo difcil de explicar-se em palavras, o amor  um sentimento nico e inconfundvel. Ele ... Diferente.
	Como assim?  Matthew insistiu.
	Ora, diferente da mera atrao fsica. 
Matthew refletiu por um momento, antes de indagar:
	J lhe aconteceu algo como... Beijar um homem e sentir-se imediatamente apaixonada por ele?
	No  ela respondeu, sem a menor convico.  Quero dizer... Voc est me bombardeando de perguntas e isso me deixa confusa.
Mas Matthew no se deteve:
	Voc poderia chamar de amor a emoo que ns dois experimentamos, quando nos beijamos agora h pouco?
	Lgico que no Kristi  afirmou, com voz trmula.  Afinal, ns... Apenas trocamos um beijo, s isso.
	S isso  ele repetiu, com frieza.
Kristi estava comeando a perder o controle.
	Gostaria de saber aonde voc pretende chegar, com essa conversa sem sentido. Por que est fazendo tantas perguntas?
Imperturbvel, Matthew explicou:
	S quero provar um ponto de vista.  Kristi j ia retrucar, mas ele continuou.  Sabe, minha irm Alice infelizmente no concorda com voc.
	Quer ser mais claro, por favor? O que Alice tem a ver com tudo isso?
	Calma, eu j lhe direi.  Sentando-se  beira da mesa, numa postura descontrada, ele explicou:  Minha irm acha que um beijo  motivo suficiente para fazer uma garota cair apaixonada. Sabe, aquele idiota do Bruce Kline beijou-a, numa festa. Depois, levou-a uma ou duas vezes para jantar e agora Alice jura que o ama perdidamente e quer se casar com ele. Voc no acha que isso  uma grande loucura?
	No sei... Alice  muito jovem. Mas, por outro lado, parece ter certeza de que Bruce  verdadeiramente o homem com quem sempre sonhou.
	Ela est enganada.
	Como pode ter tanta certeza disso, Matthew?
	Eu sei  ele afirmou, irritado.  Alice  uma garota inexperiente e sonhadora. Bruce  ambicioso, do tipo que deseja vencer a qualquer preo e que sabe quando est diante de uma boa oportunidade de ascenso social.
	L vem voc de novo com esse assunto : Kristi exclamou, de modo to spero, que ela prpria se surpreendeu.
Na verdade, estava magoada pelo fato de Matthew no demonstrar nenhuma emoo pelos beijos que haviam trocado. Ferida em seu amor-prprio, ela agora tomava uma posio agressiva.  Vou lhe dizer uma coisa, Matthew: se voc no quer realmente que esse casamento se realize, ento recuse-se a pagar a cerimnia. Esquea o contrato que lhe dei para estudar e pronto: no se fala mais nisso.
	Tudo bem, desculpe-me ter voltado a um assunto to desagradvel.  Havia Um toque de ironia naquelas palavras, mas era evidente que ele estava desconcertado com a sbita reao de Kristi.  S no entendo por que voc ficou to irritada, assim, de repente.
	No entende?  ela rebateu.  Voc est me provocando, desde...  Kristi interrompeu-se. "Desde quando?", perguntou-se, em pensamento. "Desde quando terminou de me beijar...", concluiu, com um profundo sentimento de tristeza e decepo.
	Ser que eu realmente a aborreci por ter mencionado de novo o casamento de Alice... Ou porque o simples beijo qe trocamos ainda h pouco mexeu com seus hormnios bem mais do que voc gostaria de admitir?
Furiosa, ela o encarou:
	Pois saiba que o que voc fez comigo foi horrvel e...
	Horrvel?  Matthew repetiu, com um sorriso incrdulo.  Pois me pareceu que voc estava gostando tanto...
O rubor subiu s faces de Kristi. Envergonhada e profundamente ofendida, ela o acusou:
	Voc me beijou apenas para provar um ponto de vista. Valeu-se de minha fragilidade momentnea e isso pode ser considerado como assdio sexual, est entendendo, sr. Stewart?
	Ora, voc no me repeliu, srta. Beeler. Ao contrrio, correspondeu com muita intensidade. Portanto, eu jamais poderia considerar aquele beijo como assdio.
Mas Kristi j no o ouvia. Tudo o que desejava fazer era pr um fim quela discusso.
	Voc no considera os sentimentos das pessoas?  ela argumentou, elevando a voz.  Parece muito consciente de seus encantos e no hesita em recorrer a eles para provar seus lamentveis pontos de vista. No me admira que sua irm queira livrar-se de voc, com tanta pressa.
	Ei, espere um momento...
Kristi no o deixou concluir a frase. Com uma indignao crescente, ela prosseguiu:
	Sabe de uma coisa, Matthew Stewart? Talvez Alice esteja certa, a respeito do noivo.  bem possvel que Bruce seja de fato um rapaz bem-intencionado, e no o pilantra ambicioso que voc acaba de descrever.
	Voc no sabe o que est dizendo.
	E voc sabe? Um homem to frio e descrente a respeito do amor jamais ter uma viso correta sobre os sentimentos de uma garota pura como Alice.  Kristi estava ofegante, tamanha era a raiva que a dominava. Mas ainda teve foras para dizer:  Agora, queira ter a bondade de se retirar de minha loja e no voltar nunca mais, sim?
	Calma  ele recomendou, desconcertado.  No  preciso ser to radical.
	Fora daqui  ela quase gritou.  Sinto muito por Alice, mas ela ter de procurar outra conselheira matrimonial, para a realizao de seu casamento.  Num tom mais controlado, concluiu:  Pois sei que, se  voc quem vai pagar as despesas, naturalmente teremos de estar em contato constante. E eu no quero tornar a v-lo, Matthew Stewart.
Franzindo a testa, ele ergueu-se e jogou na cesta de lixo o contrato que Kristi lhe dera, para estudar.
	Se voc quer assim, senhorita...
	Adeus.  Foi a resposta seca de Kristi.
Matthew caminhou at a porta, mas voltou-se para dizer:
	O que fiz h pouco no pode, de maneira alguma, ser chamado de assdio sexual, e voc sabe disso.
	Esquea  ela retrucou, sem olh-lo.
	 verdade que no acredito no casamento... Nem em amor eterno e outros disparates no gnero.
	Pouco me importam as suas opinies.
	... Estou vendo que no, mesmo.  Um sorriso insinuou-se nos lbios de Matthew.  Mas, se voc algum dia desejar uma relao tranquila, sem esse tipo de expectativa estpida que a maioria das mulheres tm a respeito do casamento, ligue para mim, est bem? Voc  uma graa e tem um modo delicioso de beijar...
	Vou ligar para voc no dia em que o fogo do inferno se transformar em cubos de gelo!  Kristi exclamou, com as faces afogueadas pela raiva.
Um riso cristalino brotou dos lbios de Matthew, que fitou-a com uma expresso marota, antes de sair.
L fora, soprava uma brisa fria, que fazia esvoaar a cortina azul-claro da janela da loja M & K. Com um gesto trmulo, Kristi cerrou a vidraa e o vento cessou.
Ela sentou-se e mergulhou o rosto entre as mos. Sentia-se to furiosa quanto impotente.
Ainda agora, no silncio da loja, podia ouvir o riso de Matthew, ecoando-lhe nos ouvidos. Nunca, em toda sua vida, sentira-se to humilhada. Matthew a beijara e ela correspondera, com todo o ardor de seu corao. S que ele pouco se importara com seus sentimentos. S fizera aquilo para provar um ponto de vista.
Mais uma vez, a indignao cresceu no ntimo de Kristi. Por que ela havia permitido que aquilo acontecesse? Por que no tivera coragem suficiente para repelir Matthew?
A resposta no era to difcil assim: ela rio conseguira resistir ao charme daquele homem. Tinha cedido ao encanto de Matthew Stewart e agora pagava um alto preo pelo erro...
O estranho era que, a despeito de toda a raiva que a dominava, bastava-lhe fechar os olhos para reviver toda a intensidade daquele beijo. E essa constatao a fez estremecer.
	Kristi Beeler!  ela se censurou, em voz alta.  Onde est seu amor-prprio?
Erguendo a gola do casaco, Matthew atravessou a rua e entrou numa alameda transversal, onde havia estacionado o carro. Estava irritado consigo e bastante confuso. Tinha beijado uma mulher que era praticamente uma desconhecida... Que absurdo! Por que, exatamente, fizera aquilo?
A verdade era que, desde o momento em que entrara na M & K  Consultoria Matrimonial, sentira-se atrado por Kristi Beeler. Havia um qu de feitio naqueles olhos verdes e francos, na boca bem delineada e to macia...
"E, assim, voc agiu como um perfeito idiota, Matt Ste-wart" ele concluiu, mentalmente.
Pensando bem, Kristi tinha toda a razo do mundo em ficar furiosa, ele constatou, apressando o passo. Ele bem que tinha merecido ser expulso da loja, depois de t-la provocado daquela maneira.
Tomar Kristi nos braos e beij-la longamente fora um erro terrvel. "Onde eu estava com a cabea, para cometer tamanha loucura?", ele se perguntou, envergonhado, enquanto tateava os bolsos do casaco,  procura das chaves do seu BMW.
O que mais o intrigava, era o fato de que ele no costumava agir assim com as outras mulheres. Ao contrrio: elas  que o assediavam constantemente, chegando at a aborrec-lo. E Matthew, vez por outra, entrava nos jogos amorosos e superficiais de alguma amante fortuita. Mas no ousava ir alm disso. Qualquer tipo de relacionamento mais profundo estava fora de cogitao. Pois h muito que Matthew chegara  triste concluso de que o amor, em sua verdadeira concepo, no existia. A maioria dos romances entre homens e mulheres no passavam, no fundo, de um mero e degradante jogo de interesses.
A despeito da vida conturbada e infeliz que seus pais haviam tido por anos a fio, ele ainda tentara abrir-se ao amor. E recebera, em troca, apenas sofrimento e revolta.
Por qu?
Essa pergunta repetia-se, mais uma vez, na mente confusa de Matthew. Por que agira daquele modo com Kristi Beeler?
O fato de ela ser bonita e atraente no bastava como justificativa para o que ele fizera. Afinal, em seu meio de trabalho, havia muitas mulheres belas e sensuais. Vrias delas j tinham deixado bem claro que estavam disponveis... E nem por isso Matthew saa por a, beijando-as ou provocando-as com conversas difceis.
Ento... Por qu?
Talvez por causa do desgaste dos ltimos meses. Sua empresa de arquitetura, apontada pela revista Week como uma das mais competentes da Amrica, vinha sendo muito requisitada pelos clientes. Matthew, diretor-geral da empresa, fora obrigado a contratar um novo grupo de engenheiros, tamanha era a demanda de trabalho. Mas ele sempre fazia questo de verificar pessoalmente os projetos e discuti-los longamente com seus assessores. Isso resultava muito bem, mas por outro lado causava-lhe um terrvel desgaste. Assim, ele se sentia cada vez mais exausto e no lhe sobrava tempo para descansar.
No que isso o desagradasse. Afinal, Matthew adorava seu trabalho e at gostava de manter-se ocupado... Para no pensar na sensao de vazio que trazia dentro do peito: um vazio causado por uma decepo amorosa, que quase o arrasara, dois anos atrs. Desde aquele golpe terrvel, que Matthew desistira do amor.
Aos trinta e cinco anos, em plena fora e vigor de sua maturidade, Matthew permitia-se buscar, nos braos de alguma amante fortuita, um pouco de prazer fsico. Mas isso era tudo. No pedia nada e no entregava nada. Seus encontros resumiam-se a uma noite num bom quarto de hotel, de preferncia com mulheres to solitrias quanto ele. Depois, o que sobrava era um sentimento de frustrao. E a certeza de que a solido o acompanharia por toda a vida.
Entretanto, Kristi lhe havia despertado uma,emoo diferente...
Mas por que pensar nisso, afinal?
"Ela no  o meu tipo", ele decidiu, acomodando-se ao volante do BMW. Manobrando o veculo, ele tomou a avenida de acesso ao bairro nobre da cidade, onde morava, com Alice, na manso Stewart.
Alice... Por que diabos aquela dandinar resolvera se casar, assim, to de repente? Ser que ela no aprendera, desde a infncia, que o casamento era uma experincia frustrante e dolorosa?
 Lembra-se de como nossos pais eram infelizes, maninha?  ele murmurou, com intensa amargura.  Eu deveria t-la advertido sobre isso, quando voc se tornou uma adolescente cheia de iluses...
Por um instante, Matthew recordou o tempo em que Alice deixara de ser menina para transformar-se numa jovem vibrante e encantadora. Como se sentira aliviado ao constatar que seus primeiros namoros com um ou outro colega de escola no passavam de simples empolgaes. Contudo, como teria podido adivinhar que Alice fechara-se num mundo de sonhos, esperando que um prncipe encantado viesse despert-la daquele devaneio?
Matthew suspirou, desanimado. Bastara um beijo numa festa, um pouco de habilidade e conversa... E pronto! Bruce manobrara bem a situao, arrebatando Alice de seu mundo de fantasias, fazendo-a crer que ele era o homem de sua vida.
Por que tinha de ser justamente Bruce, aquele oportunista?, Matthew pensou, dominado pela revolta.
Se ao menos existisse um jeito de demover Alice da ideia daquele casamento... Mas como? Apelar para a sensatez de Alice, estava fora de questo. Afinal, isto ele j havia tentado, exaustivamente. Em vo. Nenhuma garota apaixonada, tal como Alice estava, seria capaz de raciocinar com clareza. Pressionar Alice, negando-se a pagar os custos da cerimnia, tambm de nada adiantaria. Alm do mais, ela estava to fascinada por Bruce, que seria at capaz de fugir com ele, para casar-se no primeiro cartrio que encontrasse.
O que fazer, ento?
Matthew ainda se debatia nessa ideia, ao estacionar o BMW no ptio da manso onde morava. E justamente naquele momento, ocorreu-lhe uma ideia...
Se Alice desejava que a loja M & K cuidasse dos preparativos do casamento, muito bem: tudo o que ele tinha a fazer, agora, era encontrar um modo de fazer com que Kristi o ajudasse a abrir os olhos de Alice.
Era verdade que Kristi o expulsara da loja, ordenando-lhe que no voltasse a procur-la. Mas com um pouco de habilidade e um pedido formal de desculpas, talvez ele conseguisse que Kristi reconsiderasse sua posio.
E a promessa de uma boa gratificao em dinheiro, alm do pagamento pelos preparativos da cerimnia, certamente far com que Kristi aceite minha proposta ele pensou, em voz alta.
No se importaria de pagar um bom dinheiro a Kristi, se de algum modo ela conseguisse dissuadir Alice daquela
ideia absurda. Ou, ao menos, adiar o casamento. Isso daria tempo, a Alice, de conhecer melhor o homem oportunista e ambicioso que Bruce Kline era. Tinha certeza de que, to logo conhecesse as verdadeiras intenes de Bruce, Alice desistiria de despos-lo.
Um sorriso de triunfo insinuou-se nos lbios de Matthew. No seria nada fcil convencer Kristi a ajud-lo. Mas, se ela se parecesse com Elizabeth, e com as outras mulheres interesseiras que ele to bem conhecia... Ento, no teria como recusar a proposta.
	Afinal...  ele continuava a sorrir  sei muito bem o que motiva as mulheres: dinheiro. Dinheiro e nada mais.
A sra. Mary Beeler, me de Kristi, sorriu para a filha que acabava de chegar  loja, para mais um dia de trabalho.
Alta, magra, de cabelos grisalhos, Mary ainda conservava no rosto os indcios da beleza exuberante que possura, na juventude. Tinha cinquenta e sete anos bem vividos, com um casamento feliz e muita luta pela sobrevivncia.
A sra. Beeler sentia-se particularmente satisfeita naquela manh, sobretudo depois de ter recebido um telefonema to gentil, de um tal sr. Matthew Stewart. Mesmo sem conhec-lo pessoalmente, tivera uma tima impresso a respeito dele, na breve conversa telefnica que haviam tido. O sr. Stewart estava to empenhado em proporcionar a sua jovem irm uma cerimnia sofisticada, que Mary se comovera.
	Acabamos de ganhar um novo cliente  ela anunciou, depois de beijar a filha em ambas as faces.
Ah, sim?  Kristi respondeu, verificando alguns papis sobre a mesa da recepo. Havia passado uma noite pssima e s conseguira dormir por poucas horas.
	Ele me disse que conversou com voc ontem, e decidiu contratar os nossos servios para a realizao do casamento de sua irm...  Verificando o caderno de notas, acrescentou:  Aqui est: Alice Stewart.  este o nome da moa. E ele se chama...
	Matthew Stewart Kristi completou, empalidecendo.  Aquele cretino!
Mary fitou-a, espantada:
Minha filha! Isso so modos de se referir a um cliente? Ainda mais uma pessoa to gentil e educada como o sr. Stewart!
Kristi suspirou, desalentada. Claro que no tinha contado  me a respeito de Matthew... E nem pretendia faz-lo.
	Ontem  noite eu disse ao sr. Stewart que no pretendia trabalhar para ele, em hiptese alguma  Kristi explicou, tentando conter a irritao.
	Mas  a irm dele quem vai se casar  Mary argumentou, confusa com a atitude da filha.  O sr. Stewart apenas est interessado em proporcionar, a ela, a melhor cerimnia que pudermos fazer.
	Eu sei que  Alice quem vai se casar, mame  Kristi replicou, impaciente.  Mas Matthew vai pagar os custos da cerimonia e, portanto, ser com ele que deveremos discutir o oramento e uma srie de detalhes que voc conhece muito bem. E este  justamente o motivo pelo qual no quero assumir o trabalho. Entendeu?
	No  Mary respondeu, cruzando os braos e fitando a filha com estranheza.
	Bem, deixe para l. Voc assinou algum contrato com ele?
	No, exatamente. Mas dei-lhe minha palavra de que aceitaremos o trabalho. E disse-lhe para passar por aqui, a fim de assinarmos o termo de compromisso e...
	Nesse caso, no h mais nada a fazer  Kristi a interrompeu, aborrecida.  Apenas, faa-me um favor, sim?
Cuide de tudo o que for necessrio e deixe-me fora de estria.
Mary meneou a cabea, num gesto de negao:
	No vai dar.
	Por que no?
	Em primeiro lugar, porque o sr. Stewart faz questo que voc cuide pessoalmente de todos preparativos.
	Esquea, mame. Eu no vou fazer isso.
Ignorando o protesto da filha, Mary prosseguiu:
	E em segundo lugar, porque estou muito curiosa para saber o motivo de sua raiva contra o sr. Stewart.
	Eu no simpatizei com ele.  Kristi baixou os olhos. S isso.
	 mesmo?  A sra. Beeler comentou, incrdula.  E voc costuma chamar de cretino a todos os clientes com quem no simpatiza?
Kristi no respondeu. Era bvio que no conseguiria mentir para a me. Assim, ela preferiu ser direta e franca:
	Ele me beijou  disse, de um s flego.
	O qu?  Mary arregalou os olhos, que eram verdes como o de Kristi.
	Foi isso mesmo que voc ouviu, mame: Matthew Stewart me beijou, bem aqui, junto a esta mesa, ontem  noite.
	Mas... Como aconteceu? Vocs j se conheciam de algum lugar?
	No.
	Ento...?
	Alice veio me procurar e informou-me de que seu irmo chegaria em seguida. Conversamos um pouco e, de fato, ele no tardou a aparecer. Fiz as perguntas de praxe, Alice foi embora e Matthew ficou, dizendo que precisava conversar comigo em particular. Ele me falou sobre sua preocupao com o casamento da irm, que  ainda muito jovem e... De repente, sem que eu esperasse, olhou-me de um jeito...  Kristi interrompeu-se.

	Ele a fitou longamente...  Mary concluiu e ento tomou-a nos braos.  Foi isso?
	  Kristi aquiesceu, deixando-se cair numa cadeira.
 Pode-se dizer que sim.
	E voc... Gostou?
	Mame!  ela exclamou, chocada.  Isso  pergunta que se faa?
Mary sorriu, espirituosa:
	Perdo, minha querida. Eu apenas fiquei curiosa para saber como voc se sentiu.
	Eu detestei a atitude dele,  claro  Kristi respondeu, depressa... Depressa demais, por sinal.
	Certo. Voc detestou. E o que fez em seguida? Deu-lhe um tapa e mandou-o embora?
	Infelizmente, no foi assim   Kristi admitiu, enrubescendo.
Mary devolveu-lhe um olhar compreensivo. Pelo tanto que conhecia a filha, sabia que ela estava impressionada com o tal Matthew Stewart. Apenas, recusava-se a reconhecer o fato.
	Por que no me contou sobre isso?  Mary indagou.
	Ora, mame, esse fato aconteceu ontem  noite. O que acha que eu deveria ter feito?
	Podia ter ligado para mim, oras.
Para que, se eu s pretendia esquecer? E, alm do mais, como eu poderia adivinhar que Matthew ia ligar hoje cedo? Afinal, eu o expulsei daqui e ordenei-lhe que no voltasse a me procurar.
	E agora, o que faremos? Dei minha palavra ao sr. Stewart. E confesso que gostaria de cumpri-la.
	Voc pretende me obrigar a trabalhar para um homem que forou-me a beij-lo, s para cumprir a sua palavra?  Kristi exaltou-se.  Francamente, mame!
	Espere a.  Mary fitou-a com assombro.  Se Matthew Stewart realmente forou voc, ento tudo muda de figura.
	Bem, ele no usou a fora fsica  Kristi sentiu-se obrigada a dizer.  Mas abusou de minha inexperincia e de seu charme para me... Para me tirar do controle.
	Voc est dizendo a verdade, filha? Veja bem: se Matthew Stewart se portou de maneira inconveniente, ento ele  um homem perigoso e...
	Claro que   Kristi concordou, irritada.  Mas no do jeito que voc est pensando.
	Explique-se melhor, querida.
Kristi no conseguiu mais se conter:
	Droga, ele me deixou realmente desconcertada. Deveria ser proibido, aos homens descrentes do amor, usar seu charme para brincar com os sentimentos das mulheres.
	O que quer dizer com isso, filha?  Mary estava perplexa.
	Oh, nada, mame. Eu... Estou um pouco nervosa, com isso que ocorreu.
Mary ficou pensativa por alguns momentos. S ento perguntou:
	Voc seria capaz de relacionar-se com esse homem, apenas no campo profissional?
A resposta de Kristi foi agressiva:
	E em que outro campo voc acha que desejo me relacionar com Matthew Stewart?
	Voc no me entendeu. Estou querendo saber se voc se sente apta a tratar de negcios com o sr. Stewart... Sem se sentir atrada por ele.
	E quem foi que disse que estou atrada por aquele cretino?
	Oh, ningum   Mary justificou-se, com uma ponta de ironia.  Eu apenas pensei que...
	Pois pensou errado, mame!
	Tudo bem, eu desisto  Mary aquiesceu, paciente. O que devo fazer, agora? Ligo para o sr. Stewart e desmarco o compromisso, apesar de eu ter lhe dado minha palavra, ou...
	Vou encarar o desafio  Kristi decidiu, num impulso.  A loja M & K sempre cumpriu e sempre cumprir seus compromissos.
	Tem certeza do que est dizendo, meu bem?  Mary indagou, preocupada.  Se quiser um tempo para pensar...

	No  Kristi reafirmou.  J decidi e pronto.  Num tom irnico, acrescentou:  Por nada no mundo eu queria estar no lugar de Alice. Pobre garota. Aposto que Matthew escolheu a pior cerimnia do catlogo, s para...
	Ao contrrio  Mary a interrompeu, estendendo-lhe o bloco de anotaes.  Ele exige a cerimnia mais sofisticada que pudermos fazer. E mais: quer inclusive que cuidemos do traje da noiva. Precisamos falar com Dan e ver como est sua agenda.
Daniele Oak era uma das maiores estilistas do momento, e h vrios anos que trabalhava em conjunto com a M & K. No incio de sua carreira, Daniele, ento uma jovem costureira desconhecida, contara com o total apoio de Mary Beeler. E, agora, retribua o favor, encarregando-se da confeco de vestidos de noiva e outros trajes relativos a casamentos. Assim, a M & K podia oferecer, s futuras noivas, um catlogo com modelos exclusivos assinados pela estilista que agora vestia atrizes famosas, socialites e se tornava cada vez mais famosa, na Amrica e Europa.
	Kristi, voc parece estar no mundo da lua  Mary reclamou.  Acabei de falar com voc e aposto que no prestou ateno em sequer uma palavra do que eu lhe disse.
	Desculpe  Kristi pediu, com voz distante.  Sobre o que estava falando, mame?
	Sobre Dan, que me ligou ontem  noite. Conversamos bastante e ela me contou que est com a agenda lotada, para as prximas semanas.
	Ah, sim  Kristi aquiesceu, sem muito interesse.  E o que tem isso?
	O que tem  que precisamos consult-la a respeito da encomenda do vestido de Alice Stewart.
	Certo...
	Pode ao menos me dizer em que, exatamente, est pensando?  Mary indagou, aborrecida.
-  que tive uma ideia... Para salvar a ptria.  E apressou-se a explicar:  Uma ideia para nos livrarmos de Matthew.
	Ora, pensei que voc tivesse concordado em trabalhar para ele.
	A princpio, sim. Mas apenas porque voc lhe deu sua palavra. Agora, pense bem, mame: se Matthew desistir de nos contratar, tudo ficar bem. Ou seja: nem voc ter deixado de cumprir sua palavra, nem eu serei obrigada a trabalhar para ele.
	Mas por que ele desistiria?
	Porque aposto que voc ainda no lhe deu o oramento  Kristi respondeu, com ar de mistrio.
	Realmente no.  Mary assentiu, confusa.  Mas no entendo aonde voc quer chegar.
	O plano  muito simples  Kristi explicou, com um largo sorriso.  Vou pedir a Matthew um preo to alto pelos nossos servios, que ele acabar abrindo mo da ideia de trabalhar conosco. Ele quer uma cerimnia do tipo A, no ? Ou seja, a mais cara que podemos oferecer... Portanto, vou lhe dar um oramento no triplo desse valor. Ele ele simplesmente no concordar com o preo. Ento, procurar outros profissionais para cuidar disso e, assim, nos livraremos desse compromisso.
	Acha que isso  correto, filha?  Mary assumiu uma expresso severa.
	Talvez no seja. Mas no vejo outra soluo para o caso. Alm do mais, no estaremos prejudicando ningum, com isso.
	Exceto ns mesmas  Mary ponderou.  J pensou no quanto ganharamos com esse contrato? Hoje em dia, as pessoas no costumam encomendar cerimnias to caras. 
Um cliente como Matthew Stewart  algo raro, querida.
	Eu sei. Mas, mesmo assim, prefiro abrir mo dessa quantia, desde que fiquemos livre de Matthew Stewart.
	Est bem  Mary concordou, por fim.  Se voc acha que  melhor assim...

CAPITULO III

Sentada  mesa de trabalho, em sua sala particular, nos fundos da loja, Kristi pegou o telefone e discou um nmero. No tardou a ser atendida.
	Escritrios da Stewart-Arquitetura, bom dia  disse uma voz feminina, do outro lado da linha.
	Por favor, eu gostaria de falar com o sr. Stewart.
	Um momento. Vou transferir a ligao.
	Obrigada.
Em poucos segundos, uma outra voz feminina atendeu:
	Gabinete do sr. Stewart.
	Ele est, por favor?
	Sim, mas encontra-se muito ocupado no momento.
	Diga-lhe que aqui  da loja M & K. Trata-se de um assunto importante  Kristi explicou.
	Certo. Aguarde um momento, sim? Vou ver se o sr. Stewart pode atender.
Aps quase trs minutos de espera, Kristi j ia desligar, quando Matthew atendeu:
	Al, Kristi. Queira desculpar minha demora. Eu estava justamente finalizando uma reunio com meus assessores.
	Compreendo  ela assentiu, num tom seco.
	Bem, como voc passou, de ontem para c?  ele indagou, com sua voz grave e pausada.
"Cretino", Kristi pensou, irritada. "Se ele tivesse um pouquinho de sensibilidade naquele corao de pedra, saberia que passei uma noite pssima."
	Ei, voc est me ouvindo?  Ele insistiu.
	Sim  ela respondeu, rspida.  No liguei para inform-lo sobre como passei a noite, sr. Stewart.
	Matthew  ele a corrigiu.Para que tanta formalidade?
	Muito bem, Matthew.  Kristi esforava-se para manter um tom meramente profissional.  Voc conversou com minha me sobre a cerimnia do casamento de Alice, certo?
	Exato. E ela me informou que voc cuidaria do oramento.
	J tomei essa providncia. Quer anotar cada item em separado, ou...
	D-me o valor total  ele a interrompeu.
	Certo.  Com um sorriso maroto, Kristi disse o valor, sabendo que ningum, em s conscincia poderia concordar com um preo to absurdo.  Pense a respeito e entre em contato conosco, caso resolva fechar o contrato  ela acrescentou.  Ah, e tenha um bom dia, Matthew.  Desligou o telefone e recostou-se na cadeira, invadida por uma sensao de puro alvio.  Assunto encerrado.
Matthew almoou com um cliente e retornou ao escritrio por volta de duas da tarde. De passagem, pediu  secretria:
	Por favor, Marjorie, providencie um cheque neste valor.  E deu-lhe a folha de papel onde havia anotado o oramento dado por Kristi, pela manh.
A sra. Marjorie Brown era uma mulher de meia-idade, robusta e de ar bonacho. Era muito querida no escritrio da Stewart-Arquitetura, no apenas por sua bondade e competncia, mas tambm pelo seu incrvel senso de humor.
	A quem deVo enderear o cheque?  ela perguntou, tomando nas mos a folha de papel.
	 loja M & K-Consultoria Matrimonial.
Marjorie franziu a testa:
	Posso matar uma curiosidade?
	Claro.  Matthew sorriu.  Do que se trata?
	O senhor est pretendendo comprar a M & K e vai dar este cheque como entrada. Acertei?
- Errou longe, Marjorie. Estou contratando os servios da M & K para a realizao da cerimnia de casamento de minha irm.
A secretria considerou o assunto por um instante e finalmente comentou:
	Bem... Se o senhor est pensando em realizar um casamento mais chique do que o da princesa Diana com o prncipe Charles...
Matthew comeou a rir:
	Que estria  essa, Marjorie?
	 o que estou lhe dizendo. Por esse preo, o senhor certamente pode exigir uma cerimnia mais chique do que as da famlia real britnica.
	Sei que o preo  um tanto elevado, mas...
	E-le-va-do?  a secretria repetiu, num tom exageradamente dramtico.  Isto  um abuso, para se dizer o mnimo.
	Mas eu pedi a cerimnia mais sofisticada que a loja puder oferecer, sem contar o traje da noiva e...
	Mesmo assim, o preo  descabido. Por esse dinheiro, o senhor pode vestir no apenas a noiva, mas todos os convidados.
	Ei, voc no est exagerando, Marjorie?
	Quem exagerou foi a pessoa que lhe deu esse oramento, isso sim! E verdade que a M & K  famosa pela eficincia e qualidade de seus servios, mas conheo pelo menos duas lojas similares, que fariam uma bela cerimnia por muito menos.
	 mesmo?
	Pode apostar que sim. Escute, eu poderia pedir um oramento a essas agncias e assim o senhor ter uma chance de comparar os preos.
	No  Matthew  decidiu.  Providencie o cheque no nome da M & K, est bem? Agradeo seu interesse, Marjorie, mas realmente prefiro que seja assim.
	Chefinho, o senhor est cometendo uma besteira.
	E bem provvel que sim  Matthew concordou, com uma expresso enigmtica.
	E, pelo que o conheo, posso jurar que o senhor no vai mudar de ideia. Certo?
	Certssimo.  Matthew fitou-a com simpatia. Sabe de uma coisa? Voc  a melhor secretria do mundo, Marjorie.
	Mentiroso  ela reagiu, lisonjeada.
Matthew entrou em sua sala e acionou o computador, pois tinha alguns projetos urgentes a verificar.
Interrompeu o trabalho minutos depois, para falar com Marjorie pelo interfone:
	Diga-me, voc j providenciou o cheque?
	Mandei o pessoal da tesouraria cuidar disso, Ligue para l agora e pea-lhes para acrescentar quinhentos dlares no valor.
	O qu?  a secretria indagou, atnita.
	Sem perguntas, Marjorie  Matthew recomendou, divertido.  Seja uma boa menina e faa o que lhe pedi, certo?

	Desligando o interfone, ele recostou-se na cadeira. "Com que ento Kristi Beeler resolveu explorar o pobre Matthew, hein?", pensou, tornando a acionar o computador. Seu rosto msculo assumiu uma expresso de amargura.  Dinheiro...
	disse, baixinho.  Esta  a linguagem que todas elas entendem... Infelizmente Kristi no  uma exceo  regra.
O dia na M & K foi bastante atribulado, mas produtivo. No final do expediente, aps a sada de Mary e Jane, Kristi sentou-se  mesa da recepo e fechou os olhos por alguns instantes, procurando relaxar.
Estava exausta, mas satisfeita. Dali a pouco iria para casa, descansar. Precisava de uma boa noite de sono, para refazer-se. E, dessa vez, poderia dormir sem a imagem incmoda de Matthew para perturb-la.
Tal como previra, ele no dera mais notcias. Com certeza, Kristi pensou, tinha resolvido contratar os servios de outra loja.
	O que prova que o senhor  um homem inteligente, sr. Stewart  ela gracejou, em voz alta.  Ningum seria maluco de pagar um preo daqueles por uma... Oh, no!  Kristi empalideceu.  O que voc est fazendo aqui?
A sua frente, estava Matthew, que acabara de abrir a porta da loja e aproximava-se com aquele sorriso entre maroto e sedutor, que Kristi tanto desejava esquecer.
	O que voc quer?  ela indagou, a voz ligeiramente trmula.
	Ora, por que tanto .espanto?  ele retrucou, sentando-se na cadeira diante de Kristi.  Hoje de manh voc parecia to segura, ao telefone, quando me anunciou o oramento...
	Que voc sem dvida achou abusivo e por isso desistiu
de trabalhar conosco  ela completou.  Bem, no era preciso ter vindo at aqui me dizer isso. Bastaria ter telefonado.
	Quer se acalmar por favor?  Ele a fitava com uma tranquilidade que s servia para exasper-la ainda mais. 	Por que est to nervosa?
Kristi suspirou profundamente.
	Voc tem essa lamentvel mania de chegar depois do encerramento do expediente e isso me irrita.
	A porta ainda estava aberta  ele argumentou, provocando-a.
	E que me esqueci de tranc-la  Kristi explicou, rspida.  Mas enfim, j que voc est aqui, diga logo a que veio e depois tenha a bondade de retirar-se, sim? Estou exausta e preciso ir para casa o mais cedo possvel.
	Certo. Serei mais objetivo, ento.  Retirando um envelope do bolso, Matthew depositou-o sobre a mesa.  Trouxe o que voc pediu. Agora voc pode providenciar o contrato.
	Contrato?  ela repetiu, confusa.
	Sim.  Empurrando o envelope na direo de Kristi, ele continuou:  Aqui est o seu cheque.
	Mas...  Decididamente, ela no sabia o que dizer.
No havia contado, em nenhum momento, com a possibilidade de Matthew aceitar aquele oramento absurdo.
	No entendo por que voc ficou to surpresa  ele comentou, com ar zombeteiro.  Voc sempre reage assim, quando algum cliente aceita seus mdicos preos?  indagou, irnico.
Kristi no conseguia raciocinar. O que fazer, agora? Perguntou-se, sentindo-se encurralada na armadilha que ela mesma havia armado.
	O contrato, por favor?  ele insistiu.
Com um gesto nervoso, ela abriu a gaveta e retirou um modelo impresso. Preencheu alguns dados e entregou-o a Matthew:
	Leia-o com ateno. Se concordar com todas as clusulas, e s assinar as duas vias.
Com ar concentrado, Matthew examinou o documento. Kristi no ousava encar-lo. Sentia-se pssima e sua conscincia pesava. Se ao menos fosse possvel remediar a situao! Mas como confessar a Matthew que havia mentido para ele?
"E isso o que devo fazer", ela pensou. Armando-se de coragem, resolveu expor toda a verdade:
	Matthew, eu...
	Sim?  Ele ergueu os olhos para fit-la com aquela expresso que parecia desnud-la.
Enrubescendo, ela indagou, num fio de voz:
	Voc realmente concordou com o oramento que lhe dei?
	Claro  ele aquiesceu, voltando a concentrar-se na leitura do contrato.  Por que pergunta?
	 que...
Kristi no conseguiu terminar a frase. Ignorando-a, Matthew retirou uma caneta do bolso e assinou as duas vias do documento.
	Por favor, veja se o cheque est correto.
Kristi obedeceu, censurando-se por sua falta de coragem. "Droga", pensou, irritada consigo. "Por que no confesso de uma vez o meu erro? Por que no digo a Matthew que s inventei este oramento ridculo para que ele desistisse de trabalhar comigo? Ser que sou to covarde assim, a ponto de..."
	Mas o que  isso?  ela perguntou, interrompendo o pensamento.
	Ora, isso  um cheque emitido em meu nome para a loja M & K  ele respondeu, com uma quase imperceptvel ironia, que no passou despercebida a Kristi.
	No se divirta s minhas custas  ela reagiu, num tom spero.
Ora, quem deveria estar se divertindo  voc, por ter fechado um timo negcio.  Num tom confidencial e ao mesmo tempo cmico, Matthew acrescentou:  Dizem as ms lnguas, srta. Beeler, que por menos da metade desse dinheiro eu conseguiria uma tima cerimnia de casamento, em qualquer outra agncia.
	Se achou o oramento caro, por que concordou com ele? 
Motivos pessoais  ele respondeu, com um sorriso.  E agora diga-me: por que est to surpresa?
	Voc colocou quinhentos dlares a mais, sobre o valor que lhe dei. Pode me explicar por que fez isso?
	Ah,  esta a razo de seu espanto  ele comentou, despreocupado, devolvendo-lhe uma via do contrato e guardando a outra no bolso.
	E melhor voc fazer outro cheque, no valor combinado Kristi recomendou.
	No.  Foi a resposta simples de Matthew.
	Acho que voc no entendeu.  ela explicou, confusa. H quinhentos dlares a mais, aqui no cheque.
	Eu sei. Trata-se de uma pequena gorjeta.
	Como?
Imperturbvel, ele esclareceu:
	Voc j vai compreender...  Recostando-se comodamente na cadeira, continuou.  Voc j sabe que a ideia de minha irm desposar Bruce me desagrada muito.  por isso que preciso de sua ajuda... E por ela estou disposto a pagar esses quinhentos dlares a mais.
	Se voc pensa que vou trapacear Alice, est muito enganado  Kristi sentenciou.  Se com esses quinhentos dlares est pretendendo me tornar sua cmplice para ludibriar sua irm, esquea. Eu no farei isso.
	Calma  ele recomendou, num tom sarcstico.  No  preciso ficar to indignada. Alis, no entendo por que algum que capaz de cobrar um preo to elevado por seu trabalho, pode ficar to chocado com a proposta de um simples acordo entre amigos.  Antes que Kristi pudesse replicar, ele concluiu:  A questo no  trapacear Alice.
Basta apenas que voc trabalhe lentamente, entendeu?
	Matthew, eu no vou fazer isso.
	Voc no compreende que, quanto mais demorarem os preparativos, mais tempo Alice ter para analisar seus sentimentos com relao a Bruce?  ele argumentou, subitamente srio.
Kristi hesitou. Mas manteve sua posio:
Compreendo seu ponto de vista. Mas ainda assim no pretendo colaborar com voc. Se quer que Alice reflita melhor a respeito de Bruce, ento converse com ela.
	E acha que isso adiantaria? Pelo pouco que voc viu de Alice, deve ter percebido o quanto ela  teimosa.
	Pois bem. Se Alice  to teimosa assim, ento ser intil tentarmos retardar o casamento. No sero um ou dois meses de atraso que a faro mudar de dia.
	Talvez, durante esse tempo, Bruce acabe mostrando seu verdadeiro carter.
Encarando-o com firmeza, Kristi reafirmou:
	No adianta, Matthew. Eu realmente no vou sabotar o casamento de Alice.
	Mas j lhe expliquei que...
	No conte comigo  ela o interrompeu. E sentiu que havia chegado o momento de abrir o jogo com Matthew. Era agora ou nunca.  Alis, no conte comigo para coisa alguma.
: Como assim?
Kristi tomou flego para dizer:
	Preciso lhe confessar uma coisa.
	Pode falar.  Ele riu.  Adoro confidncias.
	No brinque, Matthew. O assunto  srio. Eu... No agi direito com voc.
	Oh,  mesmo?  Ele indagou, ainda rindo.
	Dei-lhe um oramento muito acima do preo que geralmente costumo cobrar. Fiz isso para que voc desistisse do contrato.
	Ora essa.  Agora Matthew estava realmente surpreso.  E por qu?
	Porque no quero trabalhar com voc  ela respondeu, exasperada. Erguendo-se, estendeu-lhe o cheque de volta.
 Por favor, rasgue isso. Vamos desfazer o negcio. No seria justo eu cobrar-lhe to caro por um servio que vale um tero desse preo.
Um sorriso incrdulo estampou-se nos lbios de Matthew:
	E a que deve este sbito ataque de honestidade?
	Poupe-me de suas gracinhas, Matthew Stewart. Vamos terminar bem esta estria, que alis nem deveria ter comeado. Procure outra agncia para cuidar do casamento de Alice, ou ento continue lutando para faz-la desistir da ideia... Enfim, faa o que quiser, mas deixe-me em paz, sim?
	Creio que agora  um pouco tarde para isso, srta. Beeler  Matthew respondeu, imperturbvel, tateando o bolso como que para certificar-se de que o contrato estava ali.
	Matthew, voc no entendeu o que acabei de confessar?
	Claro que sim. Apenas, no concordei com sua proposta de desfazer o negcio.
	Como assim? O que est querendo dizer?
	Algo muito simples, srta. Beeler: acabei de assinar um contrato com sua loja, requisitando seus servios para uma cerimnia do tipo A. Guardei minha cpia do contrato e dei-lhe o original. Portanto, se voc no cumprir sua parte no negcio, eu a processarei. Certo?  Sem mais uma palavra, ele caminhou em direo  sada.
	Matthew!  ela o chamou de volta.  Eu no vou aceitar esse dinheiro.
	Ento, trabalhe de graa. Mas trate de cumprir este compromisso. Boa noite, srta. Beeler. Preciso ir para casa e, pelo visto, voc tambm. Afinal, est com uma aparncia to cansada...,
	V para o inferno, Matthew Stewart!  Kristi gritou, deixando-se cair na cadeira, os olhos rasos de lgrimas de indignao.
Dirigindo seu BMW em direo  manso Stewart, Matthew sentia-se perturbado. Tinha ganho mais um round contra Kristi Beeler, mas no estava nem um pouco feliz com isso. Decididamente, aquela mulher tinha o dom de deix-lo confuso e frgil.
	"Pegue seu cheque de volta"  ela dissera. Mas por qu? Afinal, todas as mulheres amavam o dinheiro... E Kristi Beeler no podia ser uma exceo. Ou, ao menos, no deveria...
Mas, ento, por que ela tinha agido daquele modo to limpo e to honesto? Por que havia at tentado cancelar o contrato?
"Foi um jogo", ele decidiu. "Foi um artifcio feminino, para me confundir. Na verdade, ela j sabia que eu no voltaria atrs..."
Mas mesmo tirando uma concluso to severa a respeito de Kristi, Matthew no podia deixar de admitir que ela o havia tocado de maneira profunda... Bem mais profunda do que ele gostaria de reconhecer.

CAPITULO IV

A agitao na sala de costura da M & K era dntensa.
	Kristi, me ajude aqui com esse vestido...
	O buque da noiva j chegou?
	Kristi, voc no vai acreditar, mas acabo de receber um telefonema da agncia onde alugamos o carro e...
	Kristi, querida, voc no acha que este vu ficou muito   curto?
	Eu no quero atrasos na cerimnia... Jurei a mim mesma que o casamento de minha filha comearia exatamente na hora marcada.
	Acha que estou bem assim, mame?
Kristi corria de um lado para o outro, tentando atender todo mundo: a noiva, Leslie Smith, que dentro de uma hora deveria estar no altar, a secretria esbaforida que se desdobrava para cumprir as ltimas exigncias da sra. Lillian Smith, e ainda por cima tinha que atender ao telefone que no parava de tocar, Mary que ajeitava as flores da grinalda...
	Que dia  Kristi murmurou, com um profundo suspiro.
 E h quem imagine que a vida de uma consultora matrimonial  um mar de rosas!
	Filha...  Mary puxou-a pelo brao  quer me dar
um minuto de ateno, por favor? Preciso lhe falar sobre, um assunto importante.
	Desculpe, mame, mas no podemos conversar agora. Depois que mandarmos Leslie e Lillian Smith para a igreja, teremos tempo de sobra para tratar de qualquer outra coisa.
	A  que est o problema  Mary segredou, conduzindo a filha para fora da sala de costura.  No temos jeito de mand-las para a igreja.
	Como assim, mame?
Kristi a fez sentar-se. S ento anunciou:
	Tenho uma pssima notcia, querida. Acabaram de ligar da agncia onde alugamos o BMW que deveria conduzir Leslie  igreja...
	E da?  Kristi indagou, apreensiva.
	Houve uma pequena confuso com as fichas de aluguel. E, no momento, eles no tm nenhum BMW disponvel.
	Mas como?  Kristi reagiu, apavorada.
	No adianta ficar nervosa, filhinha. A situao  desesperadora. Portanto, ajude-me a encontrar uma sada.
	Ligue para outras agncias  Kristi decidiu.
	J fiz isso. E no consegui nada.
	Droga  Kristi mergulhou o rosto entre as mos. Sabe que eu poderia processar aquela maldita agncia?
	Sei, querida.  Mary tentava no se desesperar. Mas isso no resolveria o nosso problema, certo?
	Muito bem.  Kristi ergueu-se.  Vou conversar com Leslie e explicar o que houve. Eu mesma a levarei at a igreja, no meu escort.
	Eu cuidarei disso  Mary ofereceu.  Voc est muito nervosa. Procure se acalmar, enquanto falo com Leslie, est bem?
	Leslie no  problema. O duro ser a me dela...
	Deixe comigo.  Mary caminhou decidida at a sala de costura, abriu a porta e entrou.
	Que dia, meu Deus  Kristi desabafou.  Que mais falta acontecer hoje?
Mal havia terminado a frase, a porta da loja se abriu e Matthew entrou.
	Como vai, Kristi? Tentei ligar para voc hoje, a fim de marcar um horrio para Alice vir discutir os detalhes da cerimnia. Mas seu telefone estava ocupado o tempo todo. E como eu tinha mesmo de visitar um cliente aqui perto...  Matthew interrompeu-se, ao ver a expresso de desalento de Kristi.  Ei, o que h? Minha presena  to desagradvel assim?
Tentando manter o controle, ela respondeu:
	No me leve a mal, mas voc chegou num pssimo momento e eu realmente no posso atend-lo. Se puder ligar para mim amanh...
	No vou lhe tomar muito tempo  ele apressou-se a explicar.  Passei apenas para marcar um horrio para Alice e, tambm, fazer-lhe uma proposta. Matthew sorriu, corts.  Sem ressentimentos, est bem, Kristi? Daqui por diante, no quero mais que nossas conversas sejam desagradveis.
	Est bem  ela concordou, rpido. No tinha tempo para discutir com Matthew, embora ainda no houvesse desistido da ideia de convenc-lo a cancelar o cheque valioso que ele havia lhe dado.  Sem ressentimentos, Matthew.
	Assim est melhor  ele aquiesceu, satisfeito.  E agora, se puder marcar uma hora para Alice...
	Sinto muito, mas estou realmente atribulada. Vamos fazer assim: ligarei para Alice amanh e...
A conversa foi interrompida por Mary que, saindo da sala de costura, precipitou-se para a filha:
	Kristi, eu realmente no sei o que fazer. Leslie concordou em ir  igreja em seu escort, mas a me dela est furiosa. Disse que vai nos processar e...
	Algum problema, senhora?  Matthew a interrompeu, num tom solcito.  Se eu puder ajudar...
	Sim, voc pode  Kristi quase gritou.  Basta sair daqui agora.
	Minha filha!  Mary a advertiu.  Isso so modos de tratar as pessoas?  Voltando-se para Matthew procurou desculpar-se:  Por favor, no leve a mal. Ela est muito nervosa, senhor...
	Stewart  ele se apresentou.  Matthew Stewart, a seu inteiro dispor.
Mary sorriu.
	Muito prazer, sr. Stewart. Desculpe-nos essa correria, mas  que estamos com um problema srio.
Matthew retribuiu o sorriso: 
Ora, no  preciso se desculpar. A senhora dever ser Mary Beeler, com quem falei por telefone.
	Sim, estou reconhecendo a sua voz.
	Escutem aqui  Furiosa, Kristi olhava de um para o outro.  Estamos em meio a uma verdadeira tempestade de problemas e vocs dois resolvem ficar trocando gentilezas?
	Kristi!  Mary tornou a censur-la.
	Deixe, senhora  Matthew interveio.  Eu compreendo.
	Obrigada  Kristi assentiu, irnica.  Voc  um poo de cortesia, Matthew Stewart.  E afastou-se em direo  sala de costura.
	O que voc vai fazer, querida?  Mary indagou.
	Vou dizer a Lillian Smith que, se ela no aceitar que sua filha v at a igreja em meu humilde escort, ento que a faa ir a p. Que diabos, eu no posso fazer milagres!
No posso fabricar um BMW, de um momento para o outro.
	Espere  Matthew a deteve.  Por que no me conta o que est acontecendo? Talvez eu possa ajudar.
	Fique fora disso, est bem? Sou perfeitamente capaz de resolver meus problemas sozinha.
Naquele momento, a porta da sala de costura se abriu e Lillian Smith saiu, acompanhada pela filha e pela secretria de Kristi:
	Estou chocada, srta. Beeler  a velha senhora exclamou, totalmente fora de si.  Isso  um desplante! No permitirei que a senhorita estrague o casamento de minha filha. Dou-lhe quinze minutos para arranjar um BMW. Quinze minutos, senhorita! Caso contrrio, entrarei com um processo na justia, est ouvindo?
	Mas a culpa no foi minha  Kristi explicou.  Houve um problema na agncia de carros e...
	No me interessa de quem foi o erro. S sei que minha filha precisa estar na igreja daqui a pouco e a senhorita tem que cumprir o que foi combinado.
	Seja razovel, pelo amor de Deus, sra. Smith  Kristi retrucou, exasperada.
	Razovel  Lillian repetiu, com ar de desprezo.  O que a senhorita faria, em meu lugar?
A discusso prosseguiu, numa tenso crescente.
	Senhora...  Matthew inclinou-se para Mary  ser que eu no poderia colaborar?
	Receio que no, sr. Stewart.
	Por que no me explica o que est havendo?
Em poucas palavras, Mary resumiu a situao. Matthew puxou, do bolso, a gravata que havia tirado pouco antes de entrar na loja. Ajeitou-a e, elevando a voz, interrompeu a discusso:
	Sra. Smith, quer me ouvir um minuto, por favor?
Lillian Smith mirou-o com desdm:
	Posso saber o que o senhor tem a ver com isso?

	Tudo a ver, senhora  ele retrucou, com um sorriso polido.  Sou o motorista do BMW que conduzir sua filha  igreja. A srta. Beeler acabou de ligar para a agncia Stewart de Automveis, solicitando uma conduo  acrescentou, lanando um olhar cmplice para Kristi, que o fitava com perplexidade.
	Oh, graas a Deus  Lillian Smith exclamou, aliviada.
Ento voltou-se para Kristi:  Por que no me disse logo que havia resolvido o problema, querida?
	Mas...
Kristi ia dizer algo, mas Matthew adiantou-se a tempo:
	A srta. Beeler goza de grande considerao em nossa agncia. Os pedidos dela so uma ordem, senhora. Ainda h pouco, quando ela ligou para l solicitando nossos servios, meu chefe me disse: rapaz, corra a atender essa gentil senhorita...
Mary sufocava o riso. Kristi continuava atnita, e nem tinha tempo de se divertir com o desempenho de Matthew, que, fmgindo-se de motorista, continuava a falar. Mas Lillian Smith interrompeu-o:
	Um momento.  Dirigindo-se a Kristi, afirmou: Acabo de me lembrar que nosso contrato no inclui os servios de um motorista. Ficou combinado que eu mesma conduziria o BMW at minha casa e l o entregaria a meu marido, que ento levaria Leslie  igreja. Fizemos esse acordo para economizar no preo, j que no poupamos despesas com os outros detalhes da -cerimnia.
	Gentileza da casa, minha senhora  disse Matthew, num tom solene.
	Como assim, meu rapaz?  Lillian perguntou.
	 que a agncia Stewart de Automveis s aluga carros com motoristas, sabe? E, o que  mais vantajoso, no cobra sequer um tosto por essa gentileza.
	Ah, que maravilha.  Leslie, que at ento havia permanecido calada, manifestou-se. Sorrindo com simpatia para Matthew, exclamou!  Imagine s... Irei  igreja num BMW, e ainda por cima com um motorista. Minhas amigas vo morrer de inveja!
	Sim, querida  Lillian assentiu, com um largo sorriso. 	Tal como sonhamos, seu casamento ser inesquecvel.
Bem, acho que agora vou ligar para seu pai e avis-lo desta sbita mudana de planos.
	Use o telefone da sala de costura  Mary sugeriu.
	Assim, poder falar mais  vontade.  Voltando-se para a secretria, pediu:  Jane, por favor, mostre  sra. Smith onde fica o telefone.
	Obrigada  Liilian agradeceu.  E afastou-se em direo  sala de costura, seguida por Jane e pela filha.
A ss com Kristi e Matthew, Mary comeou a rir:
	Essa foi muito boa! Viram s a cara da sra. Smith? Num momento, ela queria nos trucidar. E, de repente, tornou-se de uma doura  toda prova.  Mudando de tom, voltou-se para Matthew.  Sr. Stewart, nem sei como agradec-lo. Eu... Suponho que o senhor tenha um BMW, no?
	Exatamente, senhora. Ele est estacionado bem aqui em frente.
	Ah, foi Deus quem mandou-o para c, senhor  Mary exclamou, com um olhar de gratido.  Bem, com licena. Vou at a cozinha tomar um gole de ch. Toda essa agitao me deixou tensa. Vocs esto servidos?
Kristi e Matthew recusaram o oferecimento e Mary saiu. Quando ficaram a ss, Kristi indagou, curiosa:
	Por que fez isso?
	Isso... O qu?  ele retrucou, com ar inocente.
	Por que resolveu bancar o bom samaritano, to de repente?
Com uma expresso de exagerada surpresa, ele argumentou:
	Que reao mais estranha, srta. Beeler! Eu acabo de tir-la de uma enrascada e  assim que voc me agradece?
	Ser que devo realmente agradec-lo... Ou sua boa ao tem um preo?
	Claro que tem.  Com um riso divertido, ele sugeriu:
 Por que no liga para a agncia Stewart de Automveis e no pergunta o preo do alugue de um carro com motorista?
	Porque essa agncia no existe, certo?
	Certssimo.  Matthew continuava a rir.
Mas Kristi no estava se divertindo nem um pouco. Cruzando os braos, ela exigiu:
	Fale de uma vez. O que  que voc quer? Devo preencher um cheque no valor do aluguel de um BMW, ou...
	Esquea  ele a interrompeu, subitamente srio.  No quero o seu dinheiro.
	Ento, nada feito. No posso aceitar que voc trabalhe de graa para mim.
	E quem disse que  esta a minha inteno? No acabei de falar que meu trabalho tem um preo?
	E qual ?  ela indagou, apreensiva.
	Um jantar.  Ele sorria, exibindo os dentes brancos como prolas preciosas.  Quero que voc v comigo a um restaurante, ainda hoje.
	Um jantar  ela repetiu, desejando ardentemente dizer "no". Mas s conseguiu perguntar:  E o que mais?
	E uma conversa agradvel.
	Isso  tudo?
	Sim... A menos que voc queira algo mais.
Kristi enrubesceu diante dessa insinuao. Uma sensao de mal-estar a invadiu. Tinha a ntida impresso de que Matthew acabava de vencer um round. E isso no era nada agradvel de reconhecer.
Claro que, por um lado, estava aliviada por Matthew ter se disposto a emprestar seu BMW e, ainda por cima, bancar o motorista. Mas, em contrapartida, sentia-se furiosa por ele t-la forado a aceitar um convite para jantar.
	Aceita o acordo?  ele indagou, com uma indisfarvel expresso de expectativa nos olhos azuis.
	Tenho outra alternativa?  ela retrucou, de mau-humor.  E j vou avisando-o de uma coisa, Matthew Stewart: a cerimnia na igreja levar pelo menos uma hora. Depois, voc ter de conduzir os noivos at o salo de recepo, que fica a uns quinhentos metros da igreja. Ento ter de aguardar at o final da festa para...
	Calma  ele a interrompeu.  Eu imaginava que seria assim. Mas j resolvi o problema.
	Posso saber como?
	Muito simples: assim que eu deixar a noiva na porta da igreja, ligarei para o meu mordomo, pedindo-lhe que venha me substituir. Acha que a sra. Smith ficar aborrecida com essa troca de motoristas?
	Creio que no  Kristi teve que admitir.
 E ento?  Ele sorria, triunfante.  Que tal o meu plano?
	Muito engenhoso  ela respondeu, de mau-humor.
	Obrigado. Ah, temos de combinar mais um detalhe: voc me seguir at a igreja, em seu carro. L, aguardaremos a chegada de meu mordomo e depois seguiremos at aquele agradvel restaurante italiano de que lhe falei.
	Voc sempre pensa em tudo, no ?  Kristi retrucou, irritada.
	Gosto de conduzir as coisas do melhor modo possvel, srta. Beeler:
Mas as coisas no saram exatamente como Matthew havia planejado. To logo deixou a noiva na porta da igreja, ele ligou para casa. Foi Alice quem atendeu:
	Al?
	Alice, sou eu, Matt. Chame Martin, por favor.
	Ele tirou folga, hoje. Foi visitar a irm, que acaba de ter um beb.
	Oh no  Matthew reagiu, desconsolado.  Sabe a que horas ele volta?
	Nem imagino. Por qu? Aconteceu alguma coisa? Algo que eu possa ajudar?
	No, querida  Matthew tranqilizou-a.  Est tudo bem. Como foi o seu dia, hoje, maninha?
	Sem grandes novidades. E o seu?
	Digamos que tive um dia... Singular. E a noite promete ainda mais surpresas.
Estranhando a atitude do irmo, Alice indagou, preocupada:
	Matt, voc est bem?
Ele riu:
	Estou timo, querida.

	Puxa! H quanto tempo no o ouo falar assim...  Num tom maroto, Alice quis saber:  Diga-me, quem  o responsvel por essa sbita mudana de humor? Ou melhor, quem  a responsvel...?
	No seja to curiosa, menina  ele desconversou.  Bem, eu preciso desligar, agora.
	Voc est em meio a alguma reunio importante?
	No exatamente... Estou numa igreja.
	Igreja?  Alice repetiu, surpresa.
	Sim... Quero dizer, estou num casamento.
	Casamento?  Alice estava atnita.  Mas voc odeia esse tipo de cerimnia! O que est acontecendo, afinal?
	E uma longa estria. Depois eu lhe conto.
	Est bem. Ah, falando em casamento, voc marcou um horrio com Kristi, para mim?
	Ainda no.
	Mas voc prometeu que faria isso hoje.
	E vou cumprir a promessa.
	Como, se j terminou o horrio comercial?
	E da?
	Da que Kristi j deve ter fechado a loja, oras.
	Acontece que vou jantar com ela. E ento marcarei um horrio para voc, certo?
	Est bem.  Num tom malicioso, Alice recomendou:  Tenha juzo, maninho. E bom divertimento, hein!

	Ora, no seja to infantil, Alice.
Ela riu e despediu-se:
	At mais tarde, Matt.
	At.  Ele desligou, aborrecido.
	E ento?  Kristi, que o aguardava no ptio da igreja, indagou.  Falou com seu mordomo?
	Ele tirou folga. Foi visitar um sobrinho que nasceu.
	E agora?
	Terei de continuar no papel de motorista, at o fim.
	Mas a festa s deve terminar por volta de meia-noite.
	E bom mesmo que termine nesse horrio  ele retrucou, espirituoso.  Porque, depois das doze badaladas,
meu BMW voltar a ser abbora e eu me transformarei de novo no pobre Matthew Stewart.
	Negativo  Kristi discordou, no mesmo tom.  Voc voltar a ser o eminente diretor da Stewart-Arquitetura, apontado pela como um dos profissionais mais competentes do ramo. Certo?
Ele sorriu, surpreso:
	Como sabe disso?
	Li numa revista, hoje, na hora do almoo. Seu trabalho est sendo muito bem reconhecido.
	Bem, vamos torcer para que a sra. Smith no tenha lido o artigo...  ele brincou.
Tal como Kristi havia previsto, a recepo terminou pouco depois da meia-noite. Os noivos embarcariam a uma da manh, num vo para o nordeste do Brasil, onde passariam a lua-de-mel.
Matthew conduziu-os at o aeroporto e, quando retornou ao salo, encontrou-o quase vazio. Apenas os funcionrios do buffet ainda estavam por ali, recolhendo copos, bandejas e outros apetrechos. Sentada a um canto, Kristi conversava com a funcionria responsvel pelo buffet. Matthew esperou que a funcionria se afastasse e ento aproximou-se.
	Misso cumprida, srta. Beeler  ele anunciou, com um sorriso.  Os noivos a esta hora esto literalmente nas nuvens. E, quanto a mim, acabo de encerrar minha funo de motorista.
	Por aqui tambm est tudo em ordem. Creio que podemos ir, agora.
	Voc me parece cansada  ele comentou, observando-a com ateno.  Eu deveria ser um bom rapaz e dispens-la do jantar... Mas creio que no farei isso. Kristi suspirou e sorriu:    .
	Voc foi um timo rapaz nessa noite, sr. Stewart. Creio que devo agradec-lo pela ajuda.  Fazendo uma pausa, ela acrescentou:  Mas no vou acompanh-lo no jantar.
A decepo estampou-se no rosto de Matthew:
	No?
	Com tantos canaps e doces que havia nessa festa, acabei perdendo o apetite. Entretanto, gostaria de ir a um caf. Um bom capuccino  tudo o que preciso, neste momento.
	Otima ideia  ele aquiesceu, aliviado.  Conheo um caf, que fica bem perto daqui e que funciona a noite inteira.
	Ento, vamos l.
A noite estava maravilhosa, apesar da brisa um tanto fria. O cu, pontilhado de estrelas, convidava a pensamentos romnticos. A lua crescente j ia alta no firmamento, espalhando sua luminosidade cor de prata pelas ruas tranquilas do bairro.
Kristi ergueu a gola do casaco e Matthew, tomando-lhe o brao, conduziu-a em direo ao BMW. Kristi estremeceu. Era incrvel , mas o simples toque daquela mo, sobre seu casaco de l, deixava-a desconcertada.
"Estou exausta", ela disse para si. "Portanto,  natural que me sinta to frgil."
Matthew tateou o bolso do casaco  procura das chaves do carro. Kristi descobriu, assustada, que a ideia de sentar-se com Matthew no interior de um veculo era por demais perturbadora. No que acreditasse que ele pudesse se portar de um modo inconveniente. O problema era ela: como se sentiria, numa proximidade to grande com Matthew?
	Por favor, senhorita.  Ele fez uma reverncia cmica, abrindo a porta do BMW para que Kristi se acomodasse.
Ela relutou. Ento tomou uma sbita deciso: .    Eu no vou entrar. Quero dizer, meu escort est logo ali atrs e...
	Sim, eu sei  ele a interrompeu.  Iremos at o caf no meu carro e depois eu a trarei de volta, est bem?
 No  ela respondeu, rpido.  Prefiro ir guiando meu prprio carro. Desculpe, mas realmente me sinto mais segura, assim.
De fato, era verdade. Sozinha, em seu escort, Kristi no precisaria se debater com as emoes que a proximidade com Matthew' certamente lhe causaria.
	Mais segura, voc disse?  ele fitou-a, confuso.  Pensa que dirijo mal? Tem medo de andar comigo, Kristi?
	Por que voc faz tantas perguntas?  ela retrucou, afastando-se.  J falei que prefiro ir no meu carro e pronto! Voc seguir na frente, para me mostrar o caminho.
	Teimosa...  ele provocou-a.
	Dominador... - ela rebateu, no mesmo tom.

CAPITULO V

O Caf Isabelle era um local agradvel, no final da avenida Michigan. O espao no era muito grande: tratava-se d um sobrado antigo, muito bem conservado e decorado com extremo bom-gosto. As mesas, dispostas de maneira inteligente, permitiam um timo aproveitamento do espao, proporcionando aos frequentadores uma boa dose de privacidade. A iluminao tnue dava ao ambiente um toque agradvel.
Apesar da hora avanada, havia vrias pessoas no local, conversando discretamente, ao som da msica suave que vinha das caixas dispostas ao longo das paredes.
Matthew e Kristi escolheram uma mesa no segundo pavimento do sobrado, prxima a uma sacada. Pediram dois capuccinos e croissants de queijo, e ficaram em silncio por um longo momento, contemplando o cu estrelado atravs da porta de vidro da sacada.
	Que dia, meu Deus.  Kristi suspirou, procurando relaxar.  Ainda bem que chegou ao fim.
	Sempre acontece essa correria, nos dias de casamento?
 Matthew quis saber.
	Graas a Deus no. Geralmente, as coisas correm de uma forma tranquila. Se todos os dias fossem to cheios de contratempo como o de hoje, eu certamente j teria sofrido uma estafa.  Rindo, ela concluiu:  Se eu tivesse um livro de memrias, certamente anotaria nele a minha saga com a intolervel sra. Smith.
	Seria mais apropriado anotar essa estria num livro de pesadelos  Matthew contraps, bem-humorado. Na verdade, estava francamente surpreso por descobrir a imensa capacidade de trabalho de Kristi, bem como sua seriedade profissional.
	Seja como for, creio que eu no teria conseguido resolver aquele impasse com a sra. Smith, sem a sua ajuda. Voc apareceu na hora exata, Matthew.
	E voc fez de tudo para mandar-me embora, lembra-se?
	Bem, voc h de compreender que...

	Claro que entendo. Alis, talvez seja eu quem deve agradec-la.
	Agradecer-me... Por qu?
	Por essa experincia interessante. Nunca assisto a casamentos, sabe? Detesto esse tipo de cerimnia. Mas participar como motorista foi to... Diferente. Chegou at mesmo a ser divertido.
	Ainda bem que voc v a situao por esse ngulo. Quanto a mim, se me deparar com outra ocasio to divertida quanto essa de hoje...  ela riu  fecharei o negcio e mudarei de ramo.
	Falando nisso, que tal me satisfazer uma curiosidade?
	Pode perguntar.
	Como foi' que voc entrou nesse ramo?  uma profisso to diferente.
Kristi sorveu um gole de caf, antes de responder:
	Minha me tinha duas amigas inseparveis, desde o tempo em que era estudante: Sue e Daniele. Bem, o sonho de Daniele, ou melhor, Dan, como a chamamos carinhosamente, era se tornar estilista.
	Voc no est falando de Daniele Oak, a famosa estilista conhecida em toda a Amrica?
	Ela vem sendo reconhecida na Europa, tambm  Kristi afirmou.  Sim,  a ela que estou me referindo. At hoje, Dan vem criando modelos para as noivas da M & K.
	Quer dizer que o vestido de Alice ter a assinatura de Daniele Oak?
	Exato.
	Alice ficar deslumbrada, ao saber disso.  Matthew suspirou, contrafeito.  Se ao menos ela houvesse escolhido o homem certo, para se casar...  Forando um sorriso, ele mudou de assunto:  Mas conte-me, Kristi, como foi o incio da M & K? Daniele era scia de sua me?
	No. Ela sempre preferiu dedicar-se apenas s suas criaes. A scia de mame era Sue. Ambas tinham um bom talento administrativo e, assim, resolveram abrir a loja de consultoria matrimonial. A princpio, foi muito difcil conseguir uma clientela. Mas depois, com o passar do tempo, veio o reconhecimento.
	M & K so as iniciais de Mary e Kristi, no?
	Na verdade, eram as iniciais de Mary e Karen, que  o segundo nome de Sue. Assim, por coincidncia, nem foi preciso mudar o nome da loja, quando resolvi entrar para o ramo, substituindo Sue.
	E como foi que isso aconteceu?
	Eu tinha acabado de entrar para a faculdade de Administrao de Empresas, quando o nome M & K comeou a se tornar conhecido. A clientela aumentava assustadoramente e eu resolvi trabalhar com mame e Sue, no fins de semana.  Kristi terminou o caf, antes de continuar:  Pouco antes de eu me formar, Sue e seu marido mudram-se para Montana. Ele tinha recebido uma proposta de trabalho irrecusvel e Sue, embora adorasse trabalhar com mame, no podia deixar de acompanh-lo. Assim, eu terminei a faculdade e...
	Resolveu ocupar definitivamente o lugar de Sue Matthew completou, interessado.
	Sim, mas ampliei bastante o negcio. E hoje, graas a Deus, sinto-me realizada. Gosto do meu trabalho e ganho o suficiente para levar uma vida confortvel, sem problemas monetrios.
	E quanto a seu pai?  Matthew perguntou.
	Papai...  Kristi sorriu com um misto de ternura e tristeza.  Ele ficou to feliz quando soube que eu e mame trabalharamos juntas. Mas logo adoeceu e... Bem, ele no est mais entre ns. Morreu h quase dois anos.
	Oh, eu sinto muito.
	E eu tambm. Papai era um homem como poucos que conheci.
O silncio caiu entre ambos, mas Kristi preferiu no se deixar abater.
	No quero ficar triste por papai. Sempre me lembro dele como uma pessoa maravilhosa, que jamais se entregava ao desnimo. E sei que ele no gostaria que eu lamentasse sua partida  afirmou, forando um sorriso.
Matthew sorriu de volta, mas com amargura. De certo modo invejava Kristi, por ouvi-la referir-se ao pai com tanto carinho. Ele, infelizmente no tivera essa sorte. Desde criana, presenciara as brigas terrveis entre o pai e a me. Se ao menos pudesse esquec-las, de uma vez por todas!
	E quanto a voc?  Kristi interrompeu-lhe as diva gaes.  Gosta de sua profisso?
	Muito. Desde garoto, decidi ser arquiteto. Acho que eu no suportaria trabalhar em outro ramo.
	E bom ouvir isso. Se todas as pessoas pudessem trabalhar no que realmente gostam, o mundo seria melhor.
	De fato  Matthew concordou.  Sinto-me realizado em minha profisso. Mas sofri muito para chegar at aqui. Houve uma poca que a Stewart-Arquitetura quase faliu.
	 mesmo?  Kristi indagou, interessada.
	Sim. Um funcionrio de confiana tentou dar um golpe na empresa. E quase sujou nosso nome, irreversivelmente.
 Passando a mo pelos cabelos negros, num gesto de cansao, Matthew sentenciou.   nessas horas difceis que acabamos descobrindo quais as pessoas que nos so verdadeiramente fiis...
E Elizabeth, a mulher que ele quase desposara, no estava includa nessa lista. Nem tampouco Joseph, o homem que durante anos Matthew considerara com um irmo. Tanto Elizabeth, como Joseph, o haviam abandonado naqueles dias terrveis.
 Os verdadeiros amigos so uma raridade  Kristi afirmou.  Mame costuma dizer que devemos cultivar as amizades sinceras, como se elas fossem um precioso tesouro. E eu concordo plenamente com isso.
Matthew fitou-a com intensidade... E com muita admirao. Estava ficando realmente impressionado com aquela mulher. Tudo nela o agradava: o modo gracioso com que afastava da testa uma mecha loira e teimosa... O jeito de fit-lo no fundo dos olhos, o sorriso... E como era bela! A natureza fora generosa com Kristi, dando-lhe um corpo escultural e ao mesmo tempo delicado, mesclando os encantos da menina aos da mulher.
Mas no era apenas a beleza de Kristi que o fascinava. Aos trinta e cinco anos, Matthew j havia conhecido muitas mulheres exuberantes. Entretanto, em nenhuma delas encontrara aquele toque de singeleza e simplicidade.
Por um momento, ele perguntou-se como teria sido sua vida, se houvesse encontrado Kristi, em vez de Elizabeth. Ser que sua viso a respeito do amor seria to amarga?
	Por que est me olhando assim?  a voz de Kristi trouxe-o de volta  realidade.
	Oh, nada  ele mentiu.   que acabo de me lembrar que ainda no marcamos um horrio para Alice ir  M & K, amanh.
	Eu no trouxe minha agenda. Mas prometo que ligarei para ela logo cedo. Tenho certeza de que conseguirei encaix-la entre as clientes de amanh.
	Obrigado.
	A propsito, eu queria mesmo falar com voc sobre Alice  Kristi afirmou, num tom srio.  Ou melhor,  sobre o contrato que assinamos.
	Sim?
	Em s conscincia, eu no posso aceitar aquele cheque. Alm do valor absurdo que lhe dei, h a questo daqueles quinhentos dlares.
Ele fitou-a com curiosidade:
	Voc disse que s me deu um oramento to caro para que eu desistisse de contrat-la. Por que fez isso?
	Ora, voc sabe...  Kristi explicou, enrubescendo.  O modo como as coisas correram, no nosso primeiro encontro foi muito ruim.
	Reconheo que fui cruel e grosseiro com voc.  Matthew tomou-lhe a mo e, erguendo-lhe o queixo, sorriu: Mas agora estamos nos entendendo melhor, no?
Kristi quis desviar os olhos, mas no conseguiu. Seu corao pulsou acelerado, ao simples toque da mo de Matthew.
Por que ele tem de ser to encantador?" Ela pensou, inquieta. Que tipo de poder aquele homem possua, para faz-la sentir-se assim, to frgil?
	E verdade que estamos nos relacionando bem, agora  Kristi admitiu.  E por isso mesmo fao questo de devolver-lhe o cheque em troca de outro, no valor justo do nosso contrato... E sem os quinhentos dlares adicionais, naturalmente. Por favor, diga que concorda comigo, Matthew.
	Est bem  ele aquiesceu.
Kristi sentiu-se invadida por uma sensao de alvio. Mas ainda faltava expor outro assunto:
	Quanto  questo de retardar o casamento de Alice, sou obrigada a manter minha posio inicial.
	Quer dizer que no vai me ajudar?
	Sinceramente, no. Por favor, tente compreender minha posio. Sou uma profissional e no me sinto no direito de interferir assim na vida de meus clientes.
	Est bem, Kristi, eu entendo sua posio. Mas ser que voc entende a minha?
	Como assim, Matthew?
	Minha famlia sempre foi tradicional e relativamente rica. Alm disso, tenho um nome a zelar, no mundo dos negcios. Eu e Alice somos os ltimos Stewart que restam. Minha av morreu h dois anos e, meus pais, h treze.Assim, eu e Alice no temos mais ningum no mundo.
	Mas vocs tm um ao outro.  Kristi procurou confort-lo.  E, apesar de eu t-los visto discutindo, pude perceber o quanto se amam.
	 verdade. Alice  a pessoa mais importante do mundo, para mim. Sou dezessete anos mais velho do que ela e, praticamente, ajudei a cri-la.  Um tanto tmido, Matthew confessou:  Para ser franco, eu a considero quase como se fosse minha filha. Afinal, quando meus pais morreram, ela s tinha cinco anos. E o juiz me nomeou como seu tutor. Eu a vi crescer, Kristi. E agora, por um azar do destino, aparece esse conquistador ambicioso, pronto a roub-la de mim.
Kristi considerou aquelas palavras por um longo momento, e por fim argumentou:
Perdoe minha indiscrio, mas... Ser que voc no est se comportando como aqueles pais possessivos, que desejam preservar suas filhas do mundo, encerrando-as numa cpula protetora?
	Voc no imagina por quantas vezes j me fiz essa pergunta. E cheguei  concluso de que no estou incorrendo nesse erro. Mais do ningum, desejo a felicidade de Alice... Talvez mais do que a minha prpria. E  justamente por isso que me sinto to revoltado com essa situao. Pois sei que Bruce nunca ser capaz de faz-la feliz.
	Mas o que, exatamente, o faz pensar assim?
	Sei reconhecer um homem, quando vejo um. E este no  o caso de Bruce. Falta-lhe uma coisa muito importante, chamada integridade de carter  Matthew sentenciou, num tom severo.  Percebi isso logo que o conheci. Bruce  ambicioso, do tipo que no se detm diante de nada, para cumprir seus objetivos. Ele no se preocupa com Alice, mas sim o dinheiro que ela tem. Enfim,  um oportunista, como tantos que h por a.
	Suponho que voc j tenha tentado dizer isso a Alice...
	Muitas vezes. Mas agora chegamos a um ponto que  um beco sem sada: quanto mais eu peo a Alice para retardar a data do casamento, mais ela reafirma sua deciso de desposar Bruce.
O desespero de Matthew era evidente e Kristi comoveu-se:
	Escute, eu vou tentar ajud-lo.
Os olhos de Matthew iluminaram-se:
	Obrigado, Kristi.
	Vou tentar ajud-lo... A minha maneira.
	Como?

	Ainda no sei. Talvez eu consiga conversar com Alice, num momento oportuno. Vamos ver...
	Por favor, tente abrir-lhe os olhos  Matthew pediu, ansioso.
	Farei tudo o que puder para ajud-la  Kristi prometeu.
Matthew sorriu. Sentia-se a um s tempo aliviado, feliz e... Confuso. Aliviado e feliz por contar com a ajuda de Kristi era essencial, naquele momento difcil.
Mas o que realmente o desconcertava, era o fato dela ter aberto mo de uma boa soma de dinheiro, em troca de um pagamento justo por seu trabalho. Kristi seria de fato diferente das outras mulheres que conhecera?
A conversa derivou para outros assuntos. Uma hora depois, Kristi e Matthew saram do caf. Para surpresa de Kristi, ele passou direto pelo BMW e, aproximando-se do escort, pediu:
	As chaves, por favor?
	Para qu?  ela indagou, sem entender.
	Vou lev-la at sua casa, no seu carro. E desta vez no aceitarei recusas, certo?
	E seu BMW ficar aqui?
	Tomarei um taxi, depois de deix-la, e voltarei para pegar o carro.
	Mas isso lhe dar muito trabalho  Kristi protestou.
	Sem recusas, srta. Beeler.  Ele estendeu a mo.  As chaves...?
Kristi cedeu.
A noite continuava linda, mas a temperatura havia cado um pouco. Entretanto, no interior de seu pequeno escort, sentada ao lado de Matthew, Kristi sentia-se bastante aquecida. H muito tempo que no experimentava tamanho bem-estar. J nem se lembrava do quanto Matthew a havia irritado, nas outras duas vezes em que o vira. A verdade era que, naquela noite, um vnculo de amizade tinha se estabelecido entre ambos... E talvez at algo alm da amizade. Mas, nisso, Kristi no queria pensar.
	Pode seguir a avenida at o final e entrar  direita  ela o orientou.
	Entendido  ele aquiesceu, acionando o motor.
Durante boa parte do trajeto, ambos permaneceram em silncio. E Matthew foi o primeiro a falar:
	Voc j pensou num modo de abordar Alice, para conversar sobre o casamento? No estou me referindo aos planos da cerimnia, mas sim  ajuda que voc pretende me dar.
	Preciso ser muito cautelosa, para que ela no pense que estou me intrometendo em sua deciso de desposar Bruce. Mas, a princpio, creio que seria uma boa ideia pedir a ela que me apresentasse o noivo. Assim, eu poderia formar minha prpria impresso sobre ele.
	Voc no acreditou no que eu lhe falei a respeito de Bruce  Matthew constatou, aborrecido.
	No se trata disso  Kristi se defendeu.  Acho apenas que tenho o direito de traar minha prpria sobre ele.
Alm do mais...  ela relutou, antes de concluir  voc e eu temos uma viso muito diferente a respeito do amor e do casamento.
	Eu apenas sei que as pessoas s se casam para cumprir aqueles sonhos romnticos e idiotas de que falam os livros gua-com-acar.

	Quanto a mim, prefiro acreditar que elas se casam por amor  Kristi sentenciou.
	Como pode dizer isso, se voc nem sabe definir o amor?
	Ah, no me venha com essa conversa, de novo. J discutimos sobre isso, lembra-se?
	Claro. E voc no conseguiu me convencer de seu ponto de vista.
	Posso no saber explicar o amor... Mas tenho certeza de que  ele que faz o mundo continuar... A vida continuar.
	Quem faz a continuidade da vida  o sexo, srta. Beeler 	Matthew rebateu, duramente.  Homens traindo mulheres, mulheres traindo homens, digladiando-se numa relao doentia, ao longo dos anos... Esta  a realidade. E, no entanto, todos continuam procriando.
	Esta no  a regra geral  Kristi reagiu, com firmeza. 	Nem todas as relaes entre homens e mulheres so doentias, ou neurticas. H aquelas baseadas no amor, que proporcionam uma vida rica em afeto, respeito, amizade, atrao... Enfim, so as bases verdadeiras do casamento. E no estou falando de um contrato oficial, tal como quer a sociedade. Refiro-me ao casamento de corpo e alma. Esta  a unio perfeita entre as pessoas que se amam.
	Sim, as pessoas se casam...  ele comentou, com amarga ironia  e depois se divorciam.
	Nem todas.
	Quase cinquenta por cento dos casamentos acabam resultando em divrcio.
	Acontece que muitas pessoas que se divorciam tornam a se casar e encontram a felicidade. No  por terem sido infelizes na primeira experincia, que vo se resignar h solido, pelo resto da vida. Matthew fitou-a, surpreso:
	Voc realmente acredita nisso?
	Claro que sim.  Avistando o edifcio onde morava, Kristi anunciou.  Chegamos. Pare em frente quele pequeno prdio de tijolos  vista, est bem?
Matthew estacionou o desligou o motor.
	Ento  aqui que voc mora...  comentou, observando com admirao o jardim em frente ao edifcio, com roseiras de vrias cores.
	Moro no terceiro andar.  Kristi apontou sua janela. Ali, est vendo? Onde h aquele canteiro de gernios.
	Daqui,  difcil de ver.
	Bem, voc poder conhecer meus gernios, num outro dia.  Talvez, por uma questo de educao, ela devesseconvid-lo para um caf ou um drinque. Mas j era muito tarde e, no dia seguinte, ambos teriam de trabalhar. Alm do mais, no queria arriscar-se a ficar sozinha com Matthew, no apartamento.
De algum modo inexplicvel, ele a deixava num estranho estado de esprito: um misto de bem-estar e excessiva timidez, que a encabulava. Em alguns momentos, ficava totalmente  vontade com Matthew, com a impresso de conhec-lo h muito tempo. Em outros, no entanto, sentia-se frgil como uma criana assustada. Portanto, era melhor se precaver.
	Foi uma boa noite, afinal  ela disse, por fim, com um sorriso.
	J est se despedindo?  ele retrucou.  No quer terminar nossa discusso sobre...
	O amor?  ela completou.  Creio que seria intil. Jamais chegaremos a um acordo. Voc  teimoso demais e eu tambm.
Matthew no replicou. Apenas fixou seus profundos olhos azuis nos de Kristi.
	Diga-me, qual o seu tipo de homem ideal?
Surpresa, ela procurou responder com sinceridade:
	Creio que ele deve ser sensvel, sincero, amvel... Forte, mas no brutal. Ah, sim, e que tenha senso de humor, que seja capaz de rir de seus prprios erros.
	Em resumo, voc quer um homem perfeito.
	No. Quero algum que seja to humano quanto eu, ou seja: que tenha virtudes e defeitos. Mas gostaria que esse homem lutasse para se aprimorar como pessoa, que cultivasse suas qualidades e tentasse vencer as prprias limitaes.
	Rico?
	No necessariamente. Apesar, de no mundo atual, as pessoas colocarem o dinheiro acima de tudo, no creio que ele seja o mais importante.
	De fato, no. Mas experimente viver sem dinheiro.
	Pois , acho essa estria muito injusta. Houve uma inverso de valores, no mundo em que vivemos. Dinheiro, posio social, poder... Tudo isso parece valer mais do que as verdadeiras qualidades humanas. Algum dia as pessoas compreendero o erro que esto cometendo e ento tudo ser melhor.
	Esperemos que sim, Kristi  Matthew suspirou, com amargura.  Voc  uma idealista.
	Nem tanto. Mas  preciso acreditar.  preciso ter f na beleza e na bondade que existe dentro de cada ser humano.
	Belas palavras.  Ele fitou-a com ternura e admirao.  Tomara que um dia elas possam se tornar realidade.

	Tomara  Kristi repetiu, com um olhar cheio de esperana.  E quanto a voc, Matthew? Qual o seu tipo de esposa ideal?
	No estou  procura de uma esposa. J estive prestes a ter uma, h cerca de dois anos.
	Quer dizer que voc quase chegou a se casar?  ela perguntou, surpresa.
	Sim. Mas prefiro no falar sobre isso.
	Tudo bem  ela aquiesceu.  Perdoe-me se lhe pareci indiscreta, mas  que fiquei realmente curiosa.
Ora, o que aconteceu comigo foi a coisa mais comum, a qualquer homem.  Matthew tentava parecer indiferente, mas no conseguia disfarar a dor:  Trata-se da velha e conhecida estria: estvamos noivos, ela me abandonou no momento em que eu mais precisava de apoio. At a, a dor foi suportvel. Mas quando ela resolveu se envolver com meu melhor amigo, a quem eu considerava um verdadeiro irmo... Confesso que no aguentei. E algo se quebrou, aqui dentro...  Ele apontava o corao.  Os dois partiram para a Europa e nunca mais eu soube deles. Espero ao menos que tenham sido felizes.
	Oh, Matthew  Kristi exclamou, penalizada.  Eu sinto muito.
Forando um sorriso, ele encerrou o assunto:  Tudo isso j pertence ao passado. E  l que deve permanecer.
	Tem razo  ela concordou, pensativa.  Sabe, agora compreendo melhor seu ponto de vista sobre o casamento.  Procurando confort-lo, acrescentou:  Mas acredite, nem todas as relaes entre homem e mulher terminam assim.
	As excees s confirmam a regra.
	E do uma certa esperana. Meus pais, por exemplo, foram muito felizes, em seu casamento. Nunca os vi discutindo. Os dois pareciam eternos namorados.  por isso que tenho tanta f no amor.
	Quanto a mim, no me lembro de um dia sequer em que meus pas estivessem realmente felizes. A vida deles foi um inferno, que acabou de modo trgico, num desastre de automvel.
	Mas voc ainda est vivo, Matthew  Kristi afirmou, com fervor.  E deve procurar ser feliz.
	E voc ainda acredita em contos de fadas, menina ele retrucou, com um sorriso carinhoso.
Kristi sorriu de volta. A conversa chegara ao fim. Agora, era hora de despedir-se de Matthew. Mas, por algum motivo inexplicvel, ela no conseguia falar. Tudo o que podia fazer era continuar olhando-o nos olhos, em silncio... Um silncio pleno de significados.
	Obrigado pela noite agradvel que tivemos  disse Matthew, baixinho, acariciando-lhe o rosto.
	Sou eu quem deve agradec-lo  ela respondeu, num fio de voz.  Voc foi muito bom para mim, Matthew. No vou me esquecer disso.
	Kristi...  ele aproximou os lbios.
	No...  ela sussurrou.  Por favor...
Mas o beijo foi inevitvel. E Kristi correspondeu, sabendo de antemo que era impossvel tentar resistir. Uma vez mais, ela trilhava o paraso das emoes, e tudo o que desejava era prolongar aquele momento, por toda a eternidade.
De repente, com um gesto delicado, mas firme, Matthew afastou-a de si. Assustada, como se despertasse bruscamente de um sonho maravilhoso, Kristi o ouviu dizer:
	Desculpe, eu no devia ter feito isso de novo.
	Por qu?  ela perguntou, ofegante.
	Porque no sou, nem de longe, o homem com quem voc sempre sonhou. E, sobretudo, porque voc acredita em contos de fadas... E eu no.
Kristi no respondeu. Seu corao pulsava to forte, que ela julgava poder ouvir-lhe as batidas.
	Voc  uma mulher muito bonita  Matthew continuou.  Tem um corao sensvel e bondoso, e uma grande capacidade de trabalho. Eu a admiro muito, sabe? E confesso que me sinto atrado por voc. Apenas...
	Eu no sou o seu tipo ela completou, ofendida.
	Ns no acreditamos nas mesmas coisas, entende? Eu no estou  procura da mulher ideal, nem sonho com uma vida romntica e feliz. Quero no mximo um pouco de prazer e divertimento, com algum que tambm no deseje nada alm disso.
	Entendo  ela aquiesceu, com voz trmula.
	Eu seria um mau-carter, se me envolvesse com voc. Eu acabaria matando suas iluses, sua f no amor... E isso seria imperdovel.
	Talvez...  ela disse, baixinho  voc acabasse descobrindo que eu tenho razo. Talvez eu conseguisse conta
gi-lo com minha f, Matthew.
Acariciando-lhe os cabelos loiros, ele replicou:
	Creio que  um pouco tarde para isso, querida. Se algum dia existiu em mim alguma esperana no amor, ela j morreu h muito tempo.
Kristi fitou-o com os olhos rasos de lgrimas:
	Voc  um homem teimoso, Matthew Stewart. Muito teimoso.
	Pois saiba que voc  linda, Kristi Beeler. Muito linda. E eu me odiaria, se a fizesse sofrer.
Kristi abriu a porta para saltar:
	Boa noite, Matthew.
	Boa noite.  Ele tambm desceu do escort e devolveu-lhe as chaves.  Vou pegar um taxi.
	H um ponto ali na esquina  ela informou.
Tomando-lhe as mos entre as suas, Matthew olhou-a com infinita ternura:
	Foi um imenso prazer conhec-la, Kristi Beeler. Talvez, se isso tivesse me acontecido antes, minha vida hoje seria bem diferente.  Antes que Kristi pudesse responder, ele afastou-se em direo  esquina, desaparecendo dentro da noite.

CAPITULO VI

Na manh seguinte, ao chegar  loja, Kristi beijou a me nas faces, como sempre fazia.
	Esse envelope  para voc  disse Mary, depois de cumprimentar a filha.
Kristi abriu-o e encontrou o cheque enviado por Matthew, no valor exato do contrato que ela havia estipulado. Achou tambm um bilhete:
"Bom dia. Tal como combinamos, a est o cheque. Admiro sinceramente sua honestidade como profissional e como pessoa. At qualquer hora. Matthew."
	Devolvi o primeiro cheque  secretria dele, que veio pessoalmente entregar o envelope  Mary informou-a.  E marquei um horrio com Alice, para hoje  tarde.
	Otimo, mame.
	Ei, voc est com olheiras  Mary comentou, observando a filha com ateno.  Correu tudo bem, ontem  noite?
	Sim. Agora como licena, mame. Vou at minha sala, pois tenho muito trabalho hoje.
Nos vinte dias que se seguiram, Kristi no tornou a ver Matthew. Alice ia  loja com frequncia, e os planos para a cerimnia do casamento corriam a contento.
Kristi aguardava o momento oportuno para conversar com Alice, tal como havia prometido a Matthew. Mas sentia-se to frgil e, alm disso, a garota parecia cada vez mais feliz com os preparativos para a festa...
Certa tarde, porm, quando Alice estava consultando um catlogo sobre decorao de sales de festa, Kristi armou-se de coragem e decidiu iniciar uma conversa franca. Num tom amvel, introduziu o assunto:
	Alice, preciso lhe falar sobre algo. No sei se tenho esse direito, mas...
	Pode falar  a garota interrompeu-a, com um sorriso. 	Do que se trata?
	E que...  Kristi relutava.  Bem,  que voc me parece to jovem.
	J tenho dezenove anos  Alice afirmou, orgulhosa. 	Sou uma pessoa adulta, Kristi.
	Claro que . Mas talvez no seja ainda uma mulher madura.
	A maturidade vem com o tempo, eu suponho.  Foi a resposta positiva de Alice.
	E verdade  Kristi concordou, reticente.
	Sobre o que, exatamente, quer conversar?Alice indagou, um tanto inquieta.  Voc est fazendo tanto suspense...
	E sobre seu casamento  Kristi confessou, tmida.
	Ora, no temos feito outra coisa, nos ltimos dias, Para ser sincera, no  a respeito dos preparativos que desejo lhe falar e sim sobre... Sua deciso de casar-se com Bruce.
Alice franziu a testa:
	O que  que tem isso?
	Oh, nada. E que eu estive conversando com Matthew, na ocasio da assinatura do contrato. E da...
	Da ele lhe falou um monte de bobagens a respeito de Bruce, no foi?  Alice completou, irritada.  E voc acreditou!
	Espere um momento  Kristi reagiu, num tom firme.  Eu estou apenas querendo ajud-la, querida.
	Voc est  do lado de Matt. E quer me convencer a desistir de Bruce  Alice exclamou, ofendida.
	No, meu bem. Eu apenas quero que voc tenha toda a felicidade do mundo. E tenho certeza que Matthew tambm lhe deseja isso. Apenas, ele est muito preocupado.
	Ele pensa que ainda sou uma garotinha indefesa.
	Ele ama voc, Alice.
	Eu sei. Mas est agindo de uma forma horrvel, tentando cuidar de minha vida, como um pai super-protetor. 	Alice riu, com uma expresso de desafio.  At parece que no sou capaz de saber o que  certo e o que  errado. S porque Matt sofreu uma grande desiluso, algum tempo
atrs, acha que todos os casamentos so um fracasso.
	Pois eu no penso assim, Alice. Caso contrrio, no trabalharia nesse ramo.
	Acredito em voc, Kristi  Alice aquiesceu, num tom mais calmo.  E tenho certeza de que no sofrerei como Matt sofreu. Vou ser feliz com Bruce, pode apostar nisso. Ele  um homem maravilhoso. Alis, voc vai conhec-lo em breve e ento ver que tenho razo.
	timo.  Era isso mesmo que Kristi desejava: ver Bruce de perto, para traar sua prpria opinio a respeito dele.  E quando pretende traz-lo aqui?
	Ele chegar no prximo final de semana. Estou ansiosa para apresent-lo a voc.
	Eu tambm quero muito conhec-lo  Kristi afirmou. "E tomara que voc esteja realmente certa em sua escolha, Alice", acrescentou, em pensamento. "E oxal Matthew esteja errado."
Naquela noite, Kristi recebeu um telefonema de Daniele Oak, convidando-a para assistir a um desfile no Royal Hotel, um dos mais sofisticados da cidade:
	Vou mostrar minha nova coleo primavera-vero, alm de minhas mais recentes criaes para noivas  Daniele informou-a, entusiasmada.  E conto com voc e Mary.
	Ns estaremos l, Dan  Kristi assegurou.  Aposto que o desfile ser um sucesso.
	Obrigada, querida.  Daniele relutou, antes de dizer:
	Estou precisando de um favor seu.
	Estou  sua inteira disposio, Dan. Do que se trata?
	 que esse desfile me pegou de surpresa, sabe? Recebi o convite em cima da hora e terei de trabalhar muito, para preparar tudo. E  justamente a que voc entra...
	Sim?
  O fato  que s tenho alguns poucos vestidos de noiva, aqui comigo. A maioria de meus modelos esto em exposio, na M & K.
De fato, Kristi mantinha, na sala de costura, uma vitrine com vrios vestidos de noiva, criados por Daniele. Algumas noivas compravam os modelos. Mas, outras, apenas os usavam na cerimnia e os devolviam  loja, pagando por eles uma taxa de aluguel. Esses ltimos permaneciam expostos,  disposio de quem quisesse alug-los, ou adquiri-los permanentemente.
	Ora, mas  claro que voc pode pegar os modelos que quiser, Dan  ela ofereceu.  Passe l na loja e escolha  vontade.
	Obrigada, amiga  Daniele agradeceu, comovida.  Passarei pela M & K amanh, e aproveitarei para deixar alguns convites. Boa noite, querida.
	Boa noite, Dan.
Kristi desligou e resolveu ir se deitar. Mas,. tal como vinha acontecendo h vrias noites, ela no conseguiu conciliar o sono. A imagem de Matthew estampou-se em sua mente, com assustadora nitidez.
	V-se embora, Matthew Stewart  ela disse baixinho, fechando os olhos.  Voc no acredita no amor. Portanto, no tem o direito de perturbar-me assim...
Entretanto, mesmo com os olhos fechados, Kristi ainda continuava a v-lo. Impaciente, ela ergueu-se e procurou o livro que deixara na cabeceira. Era um volume de memrias de Isadora Duncan, uma das maiores bailarinas que o mundo j conhecera. Folheando as pginas ao acaso, Kristi de-teve-se num trecho que dizia:
"Coloquem suas mos no corao como eu fao, e escutem sua alma. E todos sabero danar to bem quanto eu ou minhas alunas... Deixem as pessoas colocarem as mos assim nos coraes e, escutando suas almas, sabero como se portar."
	Ouvir a voz do corao  Kristi murmurou.   isso que devo fazer.
Ento, parou de lutar contra a imagem de Matthew. E, fechando os olhos, adormeceu.
"...Estava numa praia deserta, andando  beira"-mar,  luz do crepsculo. Uma brisa agradvel soprava, despenteando-lhe os cabelos loiros e causando-lhe uma intensa sensao de bem-estar. A poucas centenas de metros, a praia
descrevia uma curva: contra um amontoado de pedras, as ondas rebentavam em nuvens de espuma, num espetculo. Kristi continuava andando, enquanto o horizonte se tingia de dourado e prpura. Cantarolando baixinho, como se fizesse um contraponto com a eterna msica das ondas que iam e vinham numa sequncia infinita, Kristi no sabia ao certo aonde deveria chegar. S tinha uma certeza: a de que precisava continuar caminhando. J perto da curva, ela avistou o vulto de Matthew, que sentado numa rocha, sorriu e estendeu-lhe a mo:
 Eu estava a sua espera. Venha, Kristi... Venha.
Sem titubear, ela aceitou o convite. Matthew envolveu-a num forte abrao e sussurrou:
 Enfim voc chegou... Para me fazer acreditar de novo no amor sincero entre as pessoas.
 Ento era com voc que eu tinha de me encontrar  ela constatou, docemente, entregando-se de corpo e alma quele abrao.
Juntos, ambos assistiram ao crepsculo e ao surgimento da primeira estrela no cu. Ento, desceram das rochas para a praia e comearam a se amar.
 Matthew...  ela repetia esse nome, como se fosse uma carcia.
 Kristi... Diga-me que este momento nunca mais vai terminar.
 Nunca mais, querido... Nunca mais...
 Olhe-me nos olhos e diga que me ama...
Kristi abriu os olhos e levou alguns instantes para compreender onde estava. O livro de memrias de Isadora Duncan havia cado no carpete. A luz do abajur, no criado-mudo, iluminava tenuemente o quarto. Kristi estava sozinha. Tudo no passara de um sonho.
Uma lgrima furtiva escorreu-lhe pelo rosto. A verdade atingiu-a como um duro golpe. Agora, j no adiantava negar... Estava apaixonada por Matthew. E jamais seria correspondida. Tal como sempre sonhara, o amor chegara para ela... Mas sem nenhuma esperana de realizao.
Kristi consultou o relgio de cabeceira: eram quase trs da manh. Precisava tanto dormir! E o sono recusava-se a dar-lhe o descanso merecido.
Kristi desligou o abajur e a escurido envolveu-a. O tempo passava e ela no conseguia adormecer.
Os primeiros pssaros cantavam nas rvores que circundavam os fundos do edifcio, quando enfim Kristi sentiu os olhos pesados... Muito pesados.
Uma campainha insistente tocava e Kristi, sonolenta, ta-teou o relgio digital para deslig-lo. Mas o rudo no cessou. Por fim, ela compreendeu que a campainha insistente vinha do telefone, no outro criado-mudo. Erguend-se, alcanou o aparelho perguntando-se quem estaria ligando, quela hora.
	Al?
	Kristi?  indagou Mary, do outro lado da linha.  O que aconteceu? So quase nove da manh, minha filha. 
	Nove?  ela repetiu, aflita. S ento voltou-se para olhar o relgio. De fato, faltavam poucos minutos para as nove.  Puxa, acho que no ouvi o alarme do relgio. Desculpe o atraso, mame.
	Isso no  problema. Quero s saber se voc est bem.
	Acalme-se, mame. Est tudo em ordem. Chegarei a em poucos minutos. At j.  Kristi desligou o telefone e, cerca de meia hora depois, j estava pronta. Como pudera no ouvir o alarme do relgio? Isso jamais lhe acontecera, antes.
	Dan acabou de sair  Mary informou, assim que viu Kristi chegar.  Ela levou vrios modelos emprestados. E tambm deixou alguns convites para distribuirmos s clientes.
	Ento ela deve ter lhe falado sobre o desfile de sbado.
	Sim. E est contando com nossa presena. Ah, eu j ia me esquecendo: Dan pediu para avis-la que levou tambm o "Sonho".
	E mesmo?  Kristi sorriu, surpresa.  Quer dizer que ele vai fazer parte do desfile?
	Creio que sim, minha filha.
O "Sonho" era um vestido de noiva criado por Kristi, h muito tempo. Ela desenhara o modelo por pura brincadeira, e esquecera-o num bloco de anotaes. Mary mostrara-o a Dan, que aps fazer algumas modificaes, chamara Kristi para parabeniz-la:
Voc tem vocao para estilista Se quiser seguir carreira..
	No, Dan. Prefiro a rea administrativa. Admirando o desenho final do modelo, Kristi comentara:  Ei, voc fez um verdadeiro milagre, com este vestido.
	A concepo ainda  a sua. Eu apenas modifiquei alguns detalhes. E pretendo confeccion-lo, pois ele ficou muito bonito. Talvez, um dia, este seja o seu vestido de casamento.
	Nesse caso, vou batiz-lo de... "Sonho".
	Que tal "Sonho de Maio"?  Daniele sugerira.  Afinal, maio  o ms das noivas.
	E um belo nome, Dan.
	E o modelo levar a nossa assinatura.
Kristi sorrira, lisonjeada. E, de fato, Daniele acabara confeccionando o modelo, incluindo-o em seu catlogo. Mas, estranhamente, embora vrias noivas ficassem encantadas com ele, sempre acabavam escolhendo outro tipo de vestido. E o "Sonho" continuara em exposio, talvez  espera da noiva a quem estava destinado.
	Bruce chegar depois de amanh  Alice anunciou, na tarde de quinta-feira. Tinha acabado de escolher o tipo de decorao que desejava, para o salo de recepes, em sua festa de casamento.  Isso no  maravilhoso?
	Sim, querida  Kristi aquiesceu, forando um tom de entusiasmo. Estava exausta e continuava passando noites inquietas, cheias de sonhos perturbadores, onde Matthew estava sempre presente.  Fico feliz por voc.
	Obrigada. Bem, quando poderei apresent-lo a voc?
	Que tal no Royal Hotel?  Kristi retirou dois convites da gaveta e ofereceu-os a Alice, depois de inform-la sobre o desfile promovido por Daniele Oak.
	Mal posso esperar para experimentar o vestido que ela est confeccionando para mim  Alice exclamou, deliciada.
	Pois voc ter tambm a oportunidade de ver outros modelos exclusivos para noivas, na passarela. V ao desfile e leve Bruce. Assim, teremos a oportunidade de nos conhecer. timo  Alice aprovou.  Aposto que Bruce tambm vai adorar o desfile. Sabe, ele gosta de ambientes sofisticados.  Verificou os dois convites e estendeu um de volta para Kristi, explicando: Aqui est escrito que cada convite d direito  entrada de duas pessoas. Ento, no preciso deste outro.
 D-o a Matthew  Kristi sugeriu, sem pensar.
Alice agradeceu e despediu-se.

CAPITULO VII

Foi voc quem colocou aquele convite, em minha escrivaninha?  Matthew perguntou a Alice, durante o caf da manh.
	Sim. Daniele Oak vai expor seus modelos no Royal Hotel, amanh  noite. O desfile promete ser maravilhoso. Voc ir?
	Claro que no  Matthew respondeu, de mau-humor.  Voc sabe que no gosto de eventos desse tipo.
	Acontece que foi Kristi Beeler quem o mandou para voc.
	Kristi?  Ele perguntou, surpreso.
	Sim, maninho  Alice assentiu, com ar maroto.  E sabe que voc faz uma cara muito estranha, sempre que ouve falar no nome dela?
	Como?
	 isso mesmo  Alice o provocou.  Voc fica com aquele ar entre feliz e idiota de todo homem apaixonado.
Durante todos esses dias, quando eu lhe contava sobre minhas entrevistas com Kristi, voc fazia essa mesma cara.
	Ora, tenha a santa pacincia!  Matthew levantou-se da mesa, abandonando a xcara de caf quase intocada. Voc parece criana, Alice!
	E voc  o maior cabea-dura que j conheci  ela retrucou, dobrando-se de rir.
Martin, o mordomo, aproximou-se com uma bandeja de croissants:
	Ora, onde est o sr. Matthew?
	Ele acabou de sair  Alice explicou.  E est furioso.
Algum problema, senhorita? Algo em que eu possa ajudar?
Receio que no, Martin.  Alice serviu-se de um croissant.
Naquele momento, ouviram o carro de Matthew partindo  toda velocidade.
	Eu no disse?  Alice comentou.  Ah, que gnio terrvel esse meu irmo tem...
	Mas o que o aborreceu tanto?  Martin indagou, preocupado.  Ainda h pouco, ele foi at a copa pedir-me que trouxesse croissants de queijo, que so os seus preferidos.
E parecia estar de timo humor.
	Digamos que tudo aconteceu por causa de um desfile de modas...
	Como disse, senhorita?
	Ora, deixe estar, Martin. Voc no entenderia mesmo...
"Desfile de Modas no Royal Hotel promete atrair grande pblico", dizia a manchete de um importante jornal, no sbado de manh.
	Veja s a notcia, minha filha.  Mary estendeu o jornal para que Kristi o lesse.  Dan deve estar radiante.
	Ela bem que merece o reconhecimento, aps tantos anos de luta  Kristi comentou, depois de ler a reportagem.
	E ns estaremos l para prestigi-la, hoje  noite.
	Para ser sincera, no me sinto com nenhuma disposio para ir ao Royal.
	Dan ficar muito decepcionada, se voc faltar. Alm do mais...  Mary acariciou-lhe os cabelos, antes de completar:  Voc tem andado muito triste. Um pouco de movimento e contato social lhe faro bem.
	Esperemos que sim, mame  ela suspirou.
Mary fitou-a com um misto de carinho e apreenso.
	Precisamos conversar, minha filha. Voc est um pouco abatida e isso no  bom. Acho que est com algum problema, que no quer me contar.
	Ora, no se preocupe, mame. Estou muito bem de sade. Sinto-me apenas um pouco cansada.
Existe a sade do corpo e a sade da alma  Mary
sentenciou, com veemncia.  E, pelo que pude perceber, voc est sofrendo... Bem aqui.  Delicadamente, ela tocou a filha, na altura do corao.
	Eu?  Kristi tentou desconversar.  Ora, imagine.
	Voc pensa que pode enganar sua velha me? Eu a conheo muito bem, filha.
Kristi forou um sorriso:
	Voc  muito xereta, sra. Beeler. Agora chega de conversa. Tenho de receber uma cliente em quinze minutos.
Mary riu:
	Muito bem, mas no pense que vai me escapar. Uma hora dessas voc vai ter que me dizer o que est acontecendo.
	Eu prometo  Kristi afirmou, a caminho de sua sala.
O dia transcorreu normalmente, com os compromissos de sempre. No final da tarde, Kristi estava ajeitando sua mesa de trabalho, quando Mary entrou apressadamente:
	Preciso falar com voc, filha.
	Est bem  Kristi aquiesceu. Mas o que houve?
Voc parece to aflita, mame.
	Trata-se de Dan  Mary explicou, sentando-se numa cadeira.  Ela est uma pilha de nervos.
	Grande novidade  Kristi gracejou.  Dan sempre fica muito nervosa, antes de fazer um desfile. Mas, no final, tudo corre s mil maravilhas.

	Desta vez o problema  srio, filha...
Kristi fitou-a com preocupao:
	Voc est me assustando. O que houve com Dan, afinal?

	Ela precisa de sua ajuda, Kristi  Mary respondeu, num tom grave.
	Ora, ento no h problema algum. Voc sabe que sou capaz de fazer qualquer coisa para ajud-la.
	Tem certeza?  Mary retrucou, serssima.
	Fale de uma vez, mame. Estou comeando a ficar nervosa com tanto suspense.
	Est bem.  Mary ergueu-se.  A vai a bomba: uma das modelos de Dan acaba de sofrer uma luxao no p direito. No foi nada grave, mas  claro que a moa no poder desfilar.
	Que pena  Kristi comentou, pesarosa.  A pobre moa deve estar arrasada.
	E Dan tambm. Ela j contornou o problema, ao menos parcialmente. Fez uma rpida mudana no seguimento do desfile e, assim, as outras modelos substituiro a moa que se acidentou.
	Antes assim  Kristi assentiu.
	Mas acontece que na segunda parte do desfile, que  a exposio dos modelos para noivas...  Mary interrompeu-se.
Paciente, Kristi interpelou-a:
	Sim, mame, o que acontece com a segunda parte do desfile?
	Todas as modelos participaro... E, assim, no sobrar ningum para vestir o "Sonho de Maio".
	Nesse caso, Dan ter que se conformar em exclu-lo  Kristi deduziu.  Mas, mesmo assim, tenho certeza de que o desfile ser um sucesso.
	Acontece que Dan deu um destaque especial ao "Sonho". E faz questo absoluta de mostr-lo ao pblico.
	Impossvel  Kristi sentenciou.  S se ela arranjasse algum para us-lo, na ltima hora. Mas falta to pouco para o incio do desfile... E, infelizmente Dan ter de se resignar com a situao.
	A menos que voc se disponha a ajud-la.
	Mas como?
	Concordando em desfilar para Dan... Vestindo o "Sonho de Maio".
	Eu?  Kristi mal acreditava no que acabava de ouvir.
 Que loucura, mame!
	No me olhe assim. Foi nossa amiga Dan quem teve essa ideia.
	Pois Dan deve ter enlouquecido. Imagine se vou participar de um desfile de modelos profissionais, no Royal Hotel. Eu, que jamais pisei numa passarela!
	Dan acha que voc pode se sair muito bem, desde que v para l agora, para que ela possa orient-la...
	Negativo  Kristi recusou-se, com firmeza.
Mary insistiu:
	Dan acha que voc tem porte e elegncia suficientes para desfilar. Alm do mais, ela acredita que voc, por ter criado o "Sonho de Maio", ser capaz de passar perfeitamente bem o esprito do traje... E, para ser franca, eu concordo com Dan, nesse ponto.
	Vocs duas ficaram malucas?
	Filha... Voc no pode abandonar Dan, nessa situao
difcil. Voc mesma no acabou de dizer que  capaz de fazer qualquer coisa por ela? Pois ento...
	Mame!  Kristi a repreendeu.  Isto se chama chantagem emocional, sabia?
Naquele momento o telefone tocou e Kristi atendeu: era Dan. E parecia to desesperada, que Kristi no teve outra alternativa, seno ceder. Depois de prometer a Dan que iria imediatamente para o Royal, ela desligou o telefone e encarou a me com uma expresso de censura:
	Voc acaba de me colocar numa enrascada, sra. Beeler.
Mary sorriu, comovida com o gesto, da filha:
	Ora, voc ser um sucesso. Isso eu posso apostar.
	Gostaria de ter tanta certeza.  Kristi ergueu-se e pegou a bolsa  Vamos l.
Faltava pouco para o incio do desfile quando Kristi, j vestida com o "Sonho de Maio", mirou-se no espelho.
	Voc est deslumbrante, filha  Mary exclamou, em meio ao burburinho de modelos, camareiras e maquiadores.
Kristi agradeceu o elogio com um leve sorriso. Sabia que precisava manter a calma. Se se deixasse contagiar por toda aquela correria, acabaria ficando muito tensa e faria um pssimo papel, na passarela.
O "Sonho de Maio" era um vestido channel, cor de rosa plido, cingido na cintura por uma larga faixa de gaze. A saia, no estilo god, caa at abaixo dos joelhos. Na parte de cima, bordados e aplicaes de cetim davam um toque especial ao modelo. A grinalda era decorada com flores naturais e um vu de fil, num tom de rosa mais forte, caa at abaixo da cintura."
	S mesmo voc e mame para me colocarem nesta sinuca  disse Kristi para Dan, que olhava-a atentamente, para certificar-se de que no faltava nenhum detalhe.
	Agora  tarde para reclamar.  Dan sorriu.  Voc est uma das noivas mais lindas que j vi.
Eram quinze para as nove, quando a primeira parte do desfile terminou, com grande receptividade por parte do pblico. Aps um pequeno intervalo, a segundo parte teve incio e a primeira noiva entrou na passarela. Kristi seria a penltima a desfilar.
Sentia-se estranhamente calma. O fato de haver quase quinhentas pessoas na plateia no a perturbava. Dos bastidores, ela assistia ao desfile, aguardando sua vez de entrar.
	Meu namorado veio!  exclamou uma das modelos, que usava um vestido de noiva branco, do tipo tradicional.  Oh... L est ele.
	Como pode v-lo?  Kristi indagou, curiosa.
	Por este vozinho da cortina. Quer tentar?
Kristi inclinou-se e espiou a plateia, enquanto a outra modelo explicava:
	 aquele rapaz de blazer cinza e culos de aros dourados, na terceira cadeira da primeira fila,  esquerda. Viu?
	Sim... Acho que sim. Ele  ruivo?

	Exatamente. Tem os cabelos cacheados e curtos.
Kristi sorriu, comovida com a euforia da garota:
	Ele  muito simptico.
	Obrigada.  A garota estendeu-lhe a mo.  Bem, acho que ainda no fomos apresentadas, embora eu saiba que voc  Kristi Beeler, uma das criadoras do modelo que est vestindo.
	De fato, sou  Kristi confirmou, surpresa.
	Dan nos falou sobre voc  a garota explicou.
	Ah, sim. E voc, quem ?
	Rose-Marie  ela se apresentou.  Muito prazer.
	O prazer  meu  Kristi respondeu, num tom corts.
Tornou a espiar pelo vo da cortina e... Mal pde acreditar em seus olhos.  Matthew!  exclamou, ao v-lo na quarta fileira, logo atrs do namorado de Rose-Marie.  Mas no pode ser... Eu seria capaz de jurar que ele no viria.  E fechou o vo da cortina com um gesto brusco.
	O que houve?  Rose-Marie indagou, preocupada, ao v-la empalidecer.
Kristi no respondeu. De repente, toda a auto-confiana que sentira at ento comeava a desaparecer. O fato de saber que Matthew estava na plateia mudava tudo.
	Comece a se concentrar, querida  Rose-Marie recomendou.  Voc  a prxima.
Kristi imaginou-se entrando na passarela, sob o olhar crtico de Matthew... E ento tomou uma sbita deciso:
	Eu no vou.
	O que?  Rose-Marie perguntou, sobressaltada.
	Eu no vou entrar na passarela  Kristi afirmou, com voz trmula.
	Mas...
	No tenho coragem, entendeu? Sinto muito, mas no vou conseguir.
	Mas voc foi to bem, no ensaio, lembra-se?
	No adianta. Eu no vou conseguir, j disse.
	Mas voc no pode fazer isso. Dan ficar arrasada!
	Arrasada ficarei eu, ao me deparar com Matthew  Kristi desabafou.
	Com quem?
	Ora, deixe para l. E uma longa estria e voc no entenderia...
Os auto-falantes anunciaram a entrada de Kristi, que estava quase chorando.
	V, querida  Rose-Marie encorajou-a.  Dar tudo certo, acredite.
	No.
	Se voc se recusar, o desfile ser um fracasso.  Segurando-a pela cintura, Rose-Marie empurrou, do modo mais delicado possvel, para a entrada da passarela.  Desculpe-me por fazer isso, mas  preciso, querida.
Kristi ainda quis resistir. Mas ao ver-se iluminada pelos refletores, compreendeu que j havia dado o primeiro passo na passarela... E que agora seria simplesmente impossvel voltar atrs.
Ao som de uma msica renascentista, ela fez sua entrada. Um murmrio de admirao correu entre a plateia. Reunindo todas as foras que lhe restavam, Kristi procurou concentrar-se nas instrues que Daniele lhe dera.
As palmas calorosas a surpreenderam, no momento em que ela chegava ao final da passarela. Foi o suficiente para ajud-la a readquirir a confiana. Fazendo uma volta graciosa, ela se preparou para o retorno at o incio da passarela, onde agora duas garotinhas vestidas de damas de honra a aguardavam, para acompanh-la.numa nova evoluo.
A certa altura, de acordo com as instrues de Daniele, Kristi deveria parar por um instante e encarar o pblico. Quando esse momento chegou, Kristi procurou os olhos de Matthew. Para sua total surpresa, viu que ele a fitava com sincera emoo. E ela sentiu-se invadida por uma onda de pura alegria.
Sob uma chuva de aplausos, Kristi deixou a passarela. Passando por Rose-Marie, que se preparava para entrar, ela agradeceu:
	Obrigada pela fora que me deu.
	Voc foi maravilhosa  a outra respondeu, piscando-lhe um olho.
Dez minutos depois, quando Kristi retornou  passarela, junto com todas as modelos, para agradecer os aplausos do pblico, ela procurou Matthew... Mas ele j no estava ali.
Inquieta, ela se perguntou aonde Matthew teria ido. Mas no teve tempo de pensar na resposta. Assediada por Dan, Mary, modelos e pessoas da plateia, Kristi retribua os abraos e agradecia os elogios. O desfile fora realmente um sucesso.
Em meio  agitao, ela procurou Rose-Marie para dar-lhe um caloroso abrao:
	Obrigada, mais uma vez. Se no fosse por voc, eu nunca teria pisado naquela passarela.
	Voc estava um pouco nervosa, s isso.  A modelo segurou-lhe a mo, num gesto de carinho. Com ar maroto, acrescentou:  Eu s dei um empurrozinho...
Ambas riram e Kristi sentiu-se comovida:
	Falando srio, voc foi muito boa para mim. Desejo-lhe toda a sorte do mundo e que voc seja muito feliz com seu namorado.
	Obrigada.  Foi a vez de Rose-Marie comover-se.  Sabe de uma coisa, Kristi? Eu gostei de voc. Que tal sermos amigas?
	Eu aceito  Kristi afirmou, com um sorriso. Sentia-se plena e feliz. Pois, se no houvesse entrado na passarela, nunca teria visto aquele olhar de Matthew, carregado de reconhecimento e ternura... Uma ternura de que Kristi j no o julgava capaz.

CAPITULO VIII

O salo de festas do Royal estava lotado: modelos, reprteres de jornais e TV, estilistas e demais convidados conversavam em alegre burburinho, saboreando seus drinques e canaps.
	Kristi!  Alice abordou-a, abraando-a calorosamente.  Voc estava linda! Por que no me contou que ia desfilar?
	Para dizer a verdade, eu nem sabia que acabaria participando do desfile  Kristi explicou, com modstia. Tudo aconteceu to de repente...
	Como assim?
	Depois eu lhe conto, est bem?
Alice estava encantadora, num vestido longo de seda. Os cabelos, negros como os de Matthew, caam-lhe abaixo dos ombros. A seu lado, estava um rapaz magro e alto, de traos regulares. Ela apressou-se a apresent-lo:
	Este  Bruce, meu noivo. Bruce, esta  Kristi Beeler, que est cuidando dos preparativos do nosso casamento.
	E um imenso prazer conhec-la, Kristi  disse Bruce, tomando-lhe a mo.
Kristi cumprimentou-o num tom polido, fitando-o no fundo dos olhos, que eram castanhos... E frios.
	Alice me falou muito a seu respeito.  disse Bruce,
sem soltar-lhe a mo.  Mas confesso que voc no se parece muito com a consultora matrimonial que eu imaginava encontrar...
	Por que no?  Kristi indagou, retirando delicada mente a mo.
	Bem,  que sempre que pensamos numa consultora matrimonial, imaginamos tratar-se de uma pessoa mais velha... Quero dizer, mais... Maternal, talvez.
Algum como eu  disse Mary, aproximando-se do grupo.
	Que bom encontr-la aqui, sra. Beeler...  Alice saudou-a, com um sorriso.  Olhe, este  meu noivo, Bruce Kline.
	Como vai, senhora?  ele cumprimentou-a, num tom indiferente.
	Estou bem, obrigada. E com certeza devo me encaixar perfeitamente bem na imagem que voc tem a respeito das consultoras matrimoniais.
	Eu diria que sim  Bruce concordou, mas era para Kristi que ele olhava, de maneira insinuante.
	Kristi e a sra. Beeer so scias, na M & K. Elas tm sido maravilhosas comigo. E muito pacientes, tambm, pois sou to indecisa!
Kristi trocou um rpido olhar com a me. A postura de Alice, diante daquele homem, mais lembrava a de uma criana perante o pai autoritrio. Ela parecia to subserviente, como se seu nico objetivo fosse agradar o noivo, a qualquer custo.
	Agora que Bruce est de volta, poderemos ir juntos  M & K para discutir todos os detalhes da cerimnia.  Alice o olhava com ar de adorao.  No  mesmo, querido?
	Ah, sim  ele concordou, observando Kristi da cabea aos ps.  Claro... Vou gostar muito de trabalhar com Kristi Beeler. Ser... Um imenso prazer.
Kristi desviou o rosto. Aquele rapaz a desagradava, e muito. Ele praticamente a estava devorando com os olhos.
"Que petulncia", ela pensou, indignada. "Ser que ele no tem a menor considerao por sua noiva?"
Aps mais alguns minutos de conversa, Mary pediu licena e afastou-se. Quanto a Kristi , j no tinha dvidas sobre o carter de Bruce Kline. Ele no amava Alice. No se importava nem um pouco com aquela garota ingnua e gentil, que o olhava como se ele fosse um deus.
	Quer um drinque, meu querido?  Alice ofereceu. Posso ir buscar.
	Champanhe  ele respondeu, sem sequer agradecer o oferecimento.
Alice afastou-se para providenciar o drinque e, assim, Kristi viu-se a ss com Bruce, que no perdeu tempo:
	Sabe que voc  uma graa?
	Sr. Kline, espero que o senhor se restrinja a um tratamento formal, sempre que for se dirigir a mim  ela o advertiu, num tom severo.  Fui clara?
	Ora, eu no quis ofend-la, gatinha...
	Srta. Beeler  ela o corrigiu, rspida.   assim que deve me chamar.
Bruce fitou-a, surpreso.
	Nossa, voc  difcil, hein?!
	No me trate de "voc"  Kristi retrucou, perdendo a pacincia.  Eu no lhe dei essa intimidade.
	Uau!  Ele riu.  A gatinha tem unhas!
	Sim. E se quiser experiment-las,  s me provocar mais uma vez.
Kristi voltou-lhe as costas e caminhou pelo salo,  procura de Mary. No tardou a encontr-la.
	Estou chocada com o noivo de Alice, mame.
	Pobre garota  Mary comentou, meneando a cabea. E ela est to apaixonada!
	Gostaria de abrir-lhe os olhos...
	Duvido que voc consiga. Alice est cega de paixo. Tanto, que nem percebeu o modo insinuante e desagradvel com que o rapaz olhou para voc.
	Agora compreendo por que Matthew  contra esse casamento. Ele sabe que Alice est prestes a cair numa armadilha.

	No lugar dele, eu tentaria de tudo para evitar essa unio  Mary afirmou, num tom severo.
	 exatamente isso que ele est fazendo. Chegou at a.me oferecer dinheiro, em troca de uma pequena ajuda.
	Como?  Mary encarou-a, intrigada.
	Ele me pediu para retardar ao mximo os preparativos da cerimnia. E ofereceu-me uma certa quantia, por isso.
	E voc concordou?
	Claro que no. Seria contra os meus princpios.
	Ainda bem que voc pensa assim.
	, mas por outro lado, compreendo o desespero de Matthew. Como ele no conseguiu convencer a irm de que Bruce  um pssimo carter, ento quer que o casamento demore bastante, para que a prpria Alice tenha tempo de abrir os olhos.
	 bom que ela compreenda, logo, que est prestes a cometer uma tolice. Para mim est mais do que claro que aquele rapaz no a far feliz. Se ele a trata desse jeito, antes do casamento, imagine o que no far depois.
	Sinto pena dela, sabe? Alice  uma garota to cheia de sonhos, to ingnua... Tenho medo de Bruce mago-la.
E ele parece ser to cruel.
	Vamos dar tempo ao tempo. O casamento de Alice e Bruce est marcado para julho, no ?  Kristi aquiesceu com um gesto de cabea e Mary concluiu.  At l, muitas coisas podero acontecer. No h nada como um dia depois do outro, minha filha.
	 verdade.  Relanceando os olhos pelo salo lotado, Kristi perguntou:  Mame, voc por acaso no viu Matthew por a?
	No. Por qu? Ele disse que viria?
	Eu o vi na plateia  Kristi respondeu, presa de uma forte emoo.
Mary observou a filha por um longo momento, antes de dizer:
	Esse tal Matthew Stewart... Est se tornando uma pessoa muito importante para voc, no ?
Kristi ficou embai-aada.
	Ora, mame, eu apenas perguntei por ele. Que mal h nisso?
	Nenhum,  claro  Mary retrucou, sorrindo.
Kristi tentou justificar-se:
	Ele estava na plateia,  irmo de uma de nossas clientes... Portanto,  natural que eu quisesse cumpriment-lo, no?
	Lgico  Mary concordou, irnica.
	Est bem, eu reconheo que estou um tanto confusa com relao a meus sentimentos por Matthew.
Mary acariciou os cabelos da filha e fitou-a com ternura.
	Eu compreendo, meu bem. Os assuntos do corao so bastante complicados.
	Pode apostar que sim  Kristi admitiu, com uma ponta de tristeza.
		Bem, se voc quiser desabafar, conte com sua me.
Ela sorriu:
	Eu sei disso, minha querida. Se estou me recusando a falar sobre o assunto,  porque quero tirar minhas prprias concluses a respeito.
	Est bem, faa como quiser. Mas no esquea de que este ombro amigo est sempre a sua disposio.
	Obrigada, mame.  Kristi continuava olhando ao redor, procurando, entre tantos desconhecidos, aquele que seu corao pedia.
	V procur-lo  Mary aconselhou, como se lhe adivinhasse os pensamentos.
	Est bem, mame. Com licena.
Kristi caminhou pelo salo, em meio ao burburinho dos convidados. E logo foi interceptada por Rose-Marie, que parecia ansiosa para apresentar-lhe o namorado:
	Al. Quero que voc conhea o meu Jefferson.  Aps os cumprimentos e apresentaes, ela acrescentou:  Sabe, Kristi, ele quer parabeniz-la pelo seu brilhante desempenho na passarela.
	Ora, imagine...
	Voc esteve muito bem  disse o rapaz, num tom respeitoso.
Kristi sorriu, com modstia. E sentiu uma enorme simpatia por Jefferson. Como ele era diferente de Bruce Kline... Embora no fosse exatamente belo, irradiava simpatia e tinha um olhar franco. E formava um belo par com Rose-Marie.
Em poucos minutos, os trs conversavam alegremente, como se fossem velhos conhecidos.
Vez por outra, Kristi distraa-se da conversa para tornar a procurar de Matthew. Mas era intil. Ao que tudo indicava, ele sara h muito tempo.
"Por que no perguntei a Alice sobre Matthew? " Kristi questionou-se. "Ora, que falta de ideia, a minha."
Quase no mesmo instante, viu Alice passando entre os convidados, com certeza em busca de outro drinque para o noivo. Pedindo licena ao jovem casal, ela aproximou-se de Alice e tocou-lhe o brao:
	Diga-me, voc no viu Matthew por a?
	Acho que ele no veio.
	Mas eu o vi, na plateia, sentado na quarta fila.
Alice ficou pensativa, por um instante, antes de concluir:, Ento foi por isso que no o encontrei. Sabe, eu e Bruce chegamos em cima da hora e no encontramos lugar para sentar. Assim, ficamos l no fundo do auditrio. Por isso no vimos Matthew, que quela altura j devia estar acomodado na plateia.  Com uma expresso marota e um tanto infantil , ela comentou:  E pensar que Matt detesta desfiles...
	Ento, por que ser que ele veio?
	Para ver voc, naturalmente. Por que outra razo seria?
	No diga tolices, Alice.  Kristi enrubesceu.

	Ora, mas  a pura verdade. Matt est caidinho por voc.
	E de onde voc tirou essa ideia?
	Do modo interessado com que ele me pergunta de voc, sempre que volto da M & K, do olhar ansioso com que me fita, quando lhe conto como voc  gentil e bonita... Enfim, por uma srie de detalhes.  Num tom confidencial, Alice segredou.  Mas sabe quando foi que tive realmente certeza de que ele est apaixonado?
	Nem imagino  Kristi respondeu, divertida.
	Quando eu o provoquei, ontem de manh,  mesa do caf.
	O que foi que voc fez?  Kristi indagou, preocupada.
	Nada de mais, oras. Eu apenas disse: "Matt, voc est caidinho por ela." Da ele levantou-se e saiu, furioso. Parecia um garoto pego em flagrante, numa travessura. Quer um sinal mais evidente do que este?
	Voc est delirando, menina.
	Estou mesmo, ?  Alice replicou risonha. Mudando de tom, comentou.  Talvez Matt no tenha ficado na festa, por causa de Bruce. Voc sabe o quanto ele o detesta.
"E com razo", Kristi quis dizer, mas no teve coragem. De repente, Alice sobressaltou-se.
	Com licena, Kristi. Prometi a Bruce que lhe levaria um drinque, e rpido.
No acha que seu noivo j  bastante grandinho para pegar seus prprios drinques?  Kristi no pde se conter Ora, eu gosto de mim-lo um pouco.  Foi a resposta simples de Alice, ao afastar-se.  Afinal, ele  um homem
maravilhoso.
Num bar prximo ao Royal Hotel, Matthew pediu seu segundo drinque: um scotch. O garom veio servi-lo e ele agradeceu com um gesto de cabea. Sorveu um longo gole do lquido e fechou os olhos por um instante.
A imagem de Kristi, no vestido de noiva, estampou-se ntida em sua mente. Como estava bela, e com que graa havia se apresentado no desfile.
To logo Kristi deixara a passarela, ele erguera-se para sair. Tinha ficado to emocionado ao v-la, que sentira uma profunda necessidade de ficar s, para meditar.
Por isso entrara naquele bar, no porque estivesse com vontade de tomar um drinque, mas porque precisava urgentemente de um refgio.
Matthew suspirou. Teria gostado tanto de cumprimentar Kristi, depois do desfile...
"Voc esteve fascinante. Linda, como uma ninfa dos bosques... Ah, Kristi Beeler, com tantas mulheres no mundo, por que fui encontrar justamente voc?"
Sim, era isso que ele teria dito a Kristi. Mas para qu? Sua viso a respeito do amor em nada havia mudado. Portanto, era obrigado a reconhecer que jamais daria a Kristi a felicidade que ela merecia.
	O melhor que tenho a fazer  afastar-me dela, definitivamente  ele concluiu, baixinho, sorvendo um gole da bebida sem nenhum prazer.  Se no posso realizar o sonho de Kristi, ento que algum homem o faa.
Matthew abaixou a cabea, como se quisesse se desviar de um duro golpe. A simples ideia de Kristi sendo amada por outro homem era insuportvel.
"O que voc quer, afinal?" Ele se perguntou, confuso.
De fato, seu comportamento no fazia o menor sentido: no queria envolver-se com Kristi, pois no acreditava no amor. E, por outro lado, no suportava a possibilidade dela amar outro homem. Que absurdo, ele deduziu, confuso.
Abandonando o drinque pelo meio, Matthew pagou a conta e saiu.
A noite estava um pouco fria, mas agradvel.
Matthew entrou no BMW e acionou o motor. Era melhor ir para casa dormir. Uma boa noite de sono o ajudaria a superar a angstia que ameaava domin-lo.
J estava perto da manso onde morava, quando mudou de ideia. No queria encontrar Alice e Bruce, na sala. Se isso acontecesse, seria desagradvel para os trs.
 Droga  Matthew resmungou, contrariado.
Claro que j havia pedido muitas vezes a Alice que no levasse o noivo em casa. Mas era claro, tambm, que ela no o obedeceria. Alis, nos ltimos dias a situao com Alice havia piorado bastante. Volta e meia, ela o desafiava, como um adolescente em choque com o pai.
Desviando o carro, Matthew tomou outra direo. Ligou o rdio, numa estao FM que sempre costumava ouvir. Os acordes de uma antiga cano dos Beatles soaram no interior do veculo.
"Dou para ela todo o meu amor E isso  tudo o que fao E se voc conhecer meu amor Vai acabar amando-a tambm..."
Matthew desligou o aparelho. Aquela msica o fazia lembrar-se ainda mais de Kristi e de tudo que ela poderia significar... Caso ele fosse capaz de acreditar no amor.
 Creio que  um pouco tarde para isso, Kristi Beeler  ele murmurou, com um profundo suspiro. Se ao menos eu a tivesse conhecido antes, quando ainda tinha f nos sonhos romnticos...
Dirigindo a esmo pela cidade, Matthew deixava-se levar pelas divagaes. De repente, constatou que estava prximo ao bairro onde Kristi morava... Em poucos minutos, ele estacionava em frente ao pequeno edifcio de tijolos expostos.
Mas o que estava fazendo ali?
"Portando-me como o menino apaixonado que passa vinte vezes no quarteiro onde mora a namorada, para tentar encontr-la, fingindo que  por puro acaso..." Ele se respondeu, sabendo que deveria ir embora.
Observou a janela de Kristi e no viu luz alguma. Talvez ela j estivesse dormindo. Ou ainda no teria chegado?
Fosse como fosse, no fazia sentido continuar ali.
V para casa, Matthew Stewart, ou para qualquer outro lugar  ele se recomendou. - Mas pare de bancar o idiota e...
Os faris de um carro que se aproximava o fizeram calar-se.
To logo dobrou a esquina, Kristi reconheceu o BMW parado em frente ao edifcio. Um misto de alegria e inquietao a invadiu. Seria mesmo Matthew, quem estava ali? E por qu?
Kristi estacionou o escort e saltou, no exato momento em que Matthew descia do BMW.
 Ora, que surpresa  ela exclamou, sorrindo.  O que est fazendo aqui?
Boa pergunta...  Ele fitou-a com ansiedade.  O que fao por aqui? No sei... Talvez tenha vindo para cumpriment-la pelo seu belo desempenho, no desfile do Royal.
Kristi no tardou a perceber que Matthew estava profundamente triste. Com sincera preocupao, indagou:
	Aconteceu algo de errado?
	Sim.
	Oh, Deus. E o que foi?
	No consegui deixar de pensar em voc, nos ltimos dias.  Olhando-a com uma expresso quase de splica, ele confessou:  E isso que est errado comigo, Kristi.
	Voc quer subir um pouco?  ela convidou, num impulso.  Posso fazer um caf, para ns.
	Voc deve estar exausta...
	Mesmo assim, ainda insisto no caf.
	Ento...  ele sorriu  eu aceito.
Mal se viu a ss com Matthew, em seu apartamento, Kristi arrependeu-se por ter feito o convite. Era claro que estava feliz por rever Matthew. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se assustada. As emoes que aquele homem lhe despertava eram fortes demais...
	Ento aqui  o seu cantinho...  ele comentou, com uma expresso terna.
	Sim, aqui  o meu ninho. Seja bem-vindo.
A sala era decorada com extremo bom-gosto. Mveis de madeira clara combinavam perfeitamente com almofadas e cortinas em tons de degrade verde. Uma arandela pendia do teto, espalhando uma luz tnue sobre a mesa e cadeiras. Na parede, luminrias de cermica completavam a iluminao ambiente. Havia tambm um pequeno sof, uma mesinha de centro e uma esteira de palha, a um canto, coberta de almofades.
Caminhando at uma estante modulada, Kristi ligou o aparelho de som.
	Que tipo de msica voc prefere?
	Gosto de todos os gneros, mas tenho uma predileo especial por um compositor portenho, que no sei se voc conhece.
	No me diga que voc  f de Piazolla.  Ela sorriu.
	Exatamente  Matthew respondeu, agradavelmente surpreso.  Voc tambm gosta dele?
	Tenho um CD com suas composies mais famosas  Kristi anunciou, com indisfarvel orgulho.
Em poucos instantes, os acordes de Adios Nonino soaram no ambiente. Recostado no sof, Matthew fechou os olhos para perceber melhor a msica pungente do mestre argentino. E s os abriu para observar Kristi, que estava mais encantadora do que nunca, num conjunto simples, de saia e blusa, cor de marfim.
	Com licena.  Ela foi para a cozinha preparar o caf. E Matthew voltou a cerrar os olhos, deixando-se invadir por uma sensao de bem-estar e de aconchego, que h muito no experimentava.
Kristi retornou em poucos minutos, com uma bandeja, xcaras e um bule, muito antigo, cheio de caf fumegante. Serviu as xcaras e estendeu uma a Matthew, que agradeceu com um gesto de cabea. Saborearam o caf ao som de Adios Nonino, uma das composies mais famosas de Piazolia. Depois, seguiu-se Cafetin de Buenos Aires.
Kristi sentia o corao saltar-lhe no peito, como um pssaro assustado, em seu primeiro vo. Havia uma tenso quase palpvel no ar.
	Voc estava linda, no desfile  disse Matthew, depositando a xcara sobre a bandeja. Com um sorriso tmido, acrescentou:  Acho que j lhe disse isso, no?
J  ela aquiesceu, baixando os olhos.  Mas agradeo o elogio, mesmo assim.
	Eu no sabia que voc era modelo.
	Nem eu...
	Como?
Em poucas palavras, Kristi narrou, de modo espirituoso, os motivos que a tinham levado  passarela.
	Quer dizer que voc estreou hoje  Matthew concluiu, impressionado.  E como se sentiu?
	Apavorada.
Ambos riram, deliciados. E o clima tornou-se mais descontrado. Um pouco mais calma, Kristi resolveu introduzir um assunto importante;
	Sabe, Matthew, eu precisava mesmo falar com voc... Sobre Alice e Bruce.
	Por favor, vamos deixar este assunto desagradvel para uma outra ocasio.
	Mas eu tenho algo a confessar, Matthew  ela insistiu.
	Est bem  ele cedeu.  O que quer me dizer?
	Quero reconhecer que voc estava coberto de razes, a respeito de Bruce. Ele realmente no merece o amor de Alice. Conheci-o no salo do Royal, essa noite. E no precisei de muito tempo para concluir que estava diante de um pssimo carter.  Kristi fez uma pausa.  Achei que devia lhe contar sobre isso. Afinal, discutimos tanto a respeito desse casamento.
	 verdade.  Matthew suspirou, desalentado.  Bem, e agora, o que faremos? Confesso que me sinto aliviado por voc concordar comigo, quanto a Bruce. Mas isso nos leva de volta ao ponto inicial: de que modo poderemos abrir os olhos de Alice, antes que ela cometa a maior tolice de sua vida?
Vou conversar com ela  Kristi afirmou, sem muitas esperanas.  Mas sinceramente no sei se conseguirei convenc-la de que Bruce no  o homem maravilhoso que ela pensa ser.
	De qualquer forma, vale a pena tentar.
	Acho que sim.
Conversaram um pouco mais sobre o assunto e ento Matthew levantou-se.
	Acho que devo ir, agora  disse, com voz estranha, como se lhe custasse um intenso esforo sair dali.  Obrigado pelo caf e por sua agradvel companhia.
"Deixe-o ir", Kristi se ordenou, em pensamento. "No cometa a imprudncia de convid-lo para ficar mais um pouco."
	No quer uma segunda xcara de caf?  ela ofereceu, sabendo que acabava de perder sua ltima chance de sensatez.
	Voc sabe o que quero  ele respondeu, mal contendo a emoo.
	Por favor.  Kristi quis recuar, mas o rosto de Matthew estava to prximo do seu...
	O que faremos? Sei que tudo isso  uma grande loucura, mas... Ser que devemos continuar ignorando o que ambos sentimos?	
	Eu no sei...
Como lutar contra aquele sentimento poderoso, que crescia-lhe no peito a cada dia que passava?
"Impossvel resistir", Kristi pensou, entreabrindo os lbios para o primeiro beijo.
Apertando o corpo de Kristi contra o seu, Matthew acariciava-lhe os cabelos loiros, as costas, buscando o contato da pele macia sob o fino tecido da blusa que ela usava.
A msica que agora tocava no aparelho era Soledade, que significava Solido, em espanhol. Mas, naquele momento, nem Kristi nem Matthew se sentiam solitrios. Experimentavam, pela primeira vez, um contato mais ntimo. E de novo mergulhavam no mundo das emoes, que s os que se amam verdadeiramente podem conhecer.
Num gesto ousado, ditado pelo desejo que a consumia, Kristi tocou o peito de Matthew, por entre os botes entreabertos da camisa. E sentiu, contra a palma da mo, que o corao dele tambm batia descompassado. Ou melhor: obedecia ao nico compasso que importava, naquela hora... O ritmo da paixo.
 Quero voc  ele murmurou, por entre os beijos.
Kristi no respondeu em palavras. Mas seu olhar de consentimento bastava como resposta. Aos vinte e oito anos, sua experincia sexual era mnima. Tivera um namorado na faculdade, durante uns poucos meses. Haviam chegado a fazer sexo, mas Kristi jamais conhecera o verdadeiro prazer. Sempre que recordava as relaes com o namorado, sentia um misto de frustrao e culpa, e tambm um pouco de carinho.
Mas as emoes que agora experimentava com Matthew eram bem diferentes. Todo o seu ser respondia s carcias daquele homem. E o desejo pedia cada vez mais...
Os corpos agora se buscavam, com uma ousadia crescente. Por um momento, Kristi lembrou-se do primeiro sonho que tivera com Matthew , h vrias noites. Mas a realidade era ainda mais viva e mais completa do que qualquer devaneio.
O CD de Piazolla chegou ao fim e o aparelho desligou automaticamente.
Matthew e Kristi entregavam-se a uma intimidade que crescia a cada momento, traduzida em novas carcias e doces palavras sussurradas ao ouvido.
As peas de roupa caram em desordem, no carpete. Deitada sobre as almofadas macias, Kristi abriu-se de corpo e alma para receber, enfim, o homem que seu corao elegera.
L fora, amanhecia. Mas ali, no aconchego do apartamento de Kristi, os amantes nem sequer se lembravam de que o mundo existia. S tinham tempo para o amor, em suas formas mais belas e mgicas.

CAPITULO IX

Nos dias que se seguiram, Kristi viveu num clima de sonho. Sempre sonhara com a felicidade, mas nunca imaginara que ela pudesse existir de maneira to plena.
Encontrava-se com Matthew quase todas as noites, aps o trabalho. Iam a cinema, restaurantes, riam, brincavam, amavam-se loucamente como dois jovens namorados. Nos finais de semana, iam at alguma cidadezinha prxima, tomavam um quarto de hotel e entregavam-se a longas horas de puro amor.
A vida ganhava um novo significado, a cada dia que passava. Era como se um milagre houvesse acontecido: Matthew voltara a acreditar no amor. E ela, Kristi, realizava enfim seu mais antigo sonho: amar e ser correspondida.
A nica coisa que turvava toda essa felicidade, era a situao de Alice, que continuava to apaixonada por Bruce quanto antes. Kristi j havia recebido ambos por vrias vezes, na M & K, e discutira longamente sobre os preparativos para o casamento. Sua antipatia por Bruce aumentava a cada encontro.
Certa manh, Alice foi  B & K sozinha, a fim de experimentar o vestido de noiva, que Daniele Oak enviara  loja rio dia anterior. O modelo ainda no estava totalmente pronto. Mas seria bom que Alice o vestisse, e aprovasse. Era assim que Daniele Oak gostava de trabalhar.
Kristi anotou num papel as poucas modificaes que deveriam ser feitas no traje, e ajudou Alice a tir-lo. Jane, a secretria, no tinha vindo trabalhar naquele dia, a fim de estudar para uma prova. Mary sara para pagar alguns fornecedores.
Alice j estava de sada, quando Kristi resolveu abord-la, para uma conversa sria:
	Voc poderia me dar alguns minutos?
A garota aquiesceu e sentou-se na cadeira diante da mesa da recepo. Kristi tambm se acomodou e decidiu ser o mais objetiva possvel:
	Querida, no quero que voc me leve a mal, mas tenho umas coisas difceis para dizer...
Alice encarou-a com desconfiana:
	Voc e Matt tm sado juntos, ultimamente. E eu posso apostar que ele andou enchendo sua cabea de asneiras outra vez.
	Tenho minhas prprias opinies  Kristi sentenciou. 	No preciso repetir as de Matthew.  Armando-se de pacincia, explicou:  Sabe, eu tenho observado Bruce, desde que o conheci. E preciso conversar muito com voc, a respeito dele.
	V em frente  Alice retrucou, j na defensiva.  O que tem a me dizer?
	Quero alert-la sobre Bruce.  A garota fitou-a com espanto e Kristi prosseguiu:  Ele no ama voc, meu bem. Ao menos no do jeito que voc merece ser amada.
	Que ideia mais absurda! Voc enlouqueceu?

	Quem enlouqueceu foi voc, Alice?
	Como ?
	Voc est louca... De paixo. A verdade est estampada a sua frente, mas voc no quer v-la.
	Quem  voc para me dizer isso?  Alice a desafiou. Quem lhe deu o direito de intrometer-se em minha vida?
	Kristi quis explicar-se, mas a garota interrompeu-a com um gesto.  Ah, agora estou entendendo tudo. Voc e Matt armaram um plano para destruir meu casamento, no foi?

	Por que eu faria uma coisa dessas?  Kristi retrucou, ofendida.
	Porque voc apaixonou-se por Matt e est se deixando dominar por ele  Alice acusou-a.
	Eu no me deixo dominar por ningum.  Kristi elevou a voz.  J o mesmo no se pode dizer de voc, com relao a seu noivo. Diga-me, por acaso j parou para pensar na forma com que Bruce a trata? J reparou que ele no tem a menor considerao por voc?
	Ele me ama!
	Um homem apaixonado no agiria daquele jeito autoritrio e petulante. At parece que ele  um ser superior, e que voc tem obrigao de servi-lo.  Kristi calou-se, de sbito. Estava perdendo o controle e isso em nada ajudaria.
	J acabou?  Alice provocou-a.  Pois saiba que no acredito em sequer uma palavra do que voc disse.
	Est bem  Kristi sentia-se derrotada.  Eu desisto. Voc no quer ouvir ningum, mesmo.
	Exatamente. No preciso de conselhos.
	Muito bem... Eu tentei. Mas a verdade acabar aparecendo, algum dia.
	E ento voc e Matt vo descobrir que eu tinha razo.
	Gostaria de acreditar nisso, mas...
	Vocs vero!  Alice gritou.
	Veremos?  Bruce surgiu  porta da loja.  Nossa, como voc estava falando alto. Eu ouvi l de fora, sabia?
	Querido...  Alice correu a abra-lo.  Que bom que voc apareceu. Pensei que s nos veramos  noite.
	Liguei para sua casa e Martin me disse que voc estaria aqui.
	Obrigada por ter vindo. Mas vamos embora daqui agora mesmo.
	O que foi que aconteceu?  ele perguntou, impaciente.
Kristi resolveu intervir.
	Por favor, sr. Kline, leve-a para casa. Ns... Tivemos uma conversa difcil e creio que isso nos desgastou um bocado.
	Vamos embora  Alice tornou a pedir.
Bruce voltou-se para Kristi:
	O que houve, afinal?

	Pergunte a ela, sr. Kline  Kristi respondeu, asperamente.  E agora, se me derem licena, preciso almoar.
	Entendi o recado  Bruce sorriu, com a expresso provocante que tanto a irritava. Conduzindo a noiva pelo brao, despediu-se.  At qualquer hora, srta. Beeler. Tenha um bom almoo.  E saiu.
Kristi recostou-se na cadeira. A conversa com Alice no resultara em nada. Era at possvel que a garota resolvesse cancelar a cerimnia e procurar outra loja de consultoria matrimonial.
Bem, fosse como fosse, ela havia tentado. O duro seria contar tudo para Matthew, no jantar daquela noite. Tinham combinado ' de se encontrar num restaurante chins, naquela noite.
Kristi ergueu-se e preparou-se para sair. No tinha fome, mas era preciso almoar, mesmo assim. Alm do mais, queria manter-se o mais calma possvel, para o encontro com Matthew. Afinal, era fcil prever que ele ficaria muito triste, quando soubesse da terrvel discusso com Alice.
De fato, foi exatamente assim que ele reagiu, durante o jantar:
	Perdemos a nica chance de conseguir que Alice abrisse os olhos. Acho que Bruce ganhou a parada. Aquele crpula vai conseguir tudo o que quer: dinheiro e poder.
	Imagino como voc se sente  Kristi tentou anim-lo.  Mas procure compreender que todas as pessoas tm o direito de acertar e errar. Alice est cometendo uma tolice. Esperemos que ela aprenda a reconhecer isso, no futuro.
	Se ao menos Alice no fosse to teimosa...  Matthew suspirou.  Mas enfim no posso conden-la por isso. Tambm tenho um gnio terrvel. Voc viu muito bem o quanto relutei em aceitar a ideia de que o amor verdadeiro existe... Lembra-se?
Kristi sorriu:
	Acho que, de algum modo, eu sempre soube que voc tinha uma grande capacidade de amar. Seus olhos nunca me enganaram. E os olhos so o espelho da alma.
	Voc me fez renascer, Kristi  disse Matthew, emocionado.  E eu lhe serei eternamente grato por isso.
Com um olhar intenso, ela murmurou:
	s vezes penso que estou sonhando.
	Pois no est. Nosso amor transformou-se na mais pura realidade, querida.
	E nossas vidas ganharam um novo significado  ela completou.
No, dia seguinte, por volta das cinco da tarde, Matthew recebeu o telefonema de um cliente, cancelando uma reunio marcada para dali a meia hora.
"Tanto melhor"  ele pensou. Tinha dito a Kristi que no poderia v-la naquela noite, justamente devido  reunio.
Resolveu alguns assuntos pendentes no escritrio e saiu. Pretendia fazer uma surpresa a Kristi. Se se apressasse, conseguiria alcan-la ainda n loja.
Dirigindo seu BMW, ele mergulhou no trnsito intenso da avenida Michigan, consultando o relgio a todo momento. Se o trfego continuasse to lento, ele no chegaria a tempo.
Mas, pensando bem, para que preocupar-se tanto? Se no a encontrasse na loja, iria para a casa dela. E ento ambos passariam mais uma noite de amor.
O som insistente das buzinas, pressionadas por motoristas tolos, ou simplesmente mal-humorados, soava na avenida. Mas Matthew no se deixava perturbar. Com um meio sorriso, gozava antecipadamente os momentos que passaria com Kristi, a mulher que o ensinara a renascer... Para o amor.
Kristi fechou a loja por volta de seis horas, como sempre. Mal havia sado na calada, quando Bruce a abordou:
	Como vai, doura? Preciso falar com voc.
	A loja j fechou. Foi a resposta fria de Kristi.  Ligue amanh e marque um horrio com minha secretria.
	Mas no  sobre os planos do casamento  ele explicou, num tom exageradamente corts.
	No? Ento, nesse caso, no temos realmente nada a rtos dizer. Boa noite, sr. Kline.
J ia se afastando, quando Bruce segurou-a pelo brao:
	Tenha calma, gatinha. No  preciso ficar to irritada. D-me uma chance, oras.
Libertando-se com um gesto brusco, ela ordenou;
	Diga logo o que voc quer e depois deixe-me em paz.
Bruce encarou-a com uma expresso sria. Cruzando os braos, assumiu uma postura severa e autoritria, como se quisesse intimid-la.
	Voc-no gosta de mim. Estou certo, Kristi Beeler?
	Sim  Kristi respondeu, sem titubear.
	E posso saber por qu?
	Por exemplo, pela forma estpida e indiferente com que voc trata Alice.
	Ora, Alice  apenas uma criana mimada. Ela realmente no merece l muita ateno.
	Ela o ama, Bruce Kline.  Fitando-o no fundo dos olhos, Kristi o desafiou.  J o mesmo no se pode dizer de voc, a quem s interessam o dinheiro e o nome de Alice.
	Imagine  ele se defendeu, com exagerada surpresa.
	Por favor, sr. Kline, no  preciso fingir-se to chocado, com isso.
Acontece que fiquei realmente ofendido, com suas palavras.
	No me venha com essa. Pode iludir Alice o quanto quiser, mas a mim voc no engana.
Nos olhos de Bruce estampou-se uma expresso de frieza. Num tom velado, ele ameaou-a:
	Fique fora do meu caminho. Eu vou me casar com Alice, quer voc queira, quer no. Agora, seja uma boa menina e prometa que no tentar mais conversar com ela, para faz-la mudar de ideia.
	No lhe prometo nada. Eu l tenho satisfaes, para dar a voc...
	Por que est to preocupada com esse casamento?
Acaso quer ficar com o dinheiro dos Stewart s para voc?
	No admito que voc fale assim comigo  Kristi exigiu, quase perdendo o controle.
	Veja s...  Bruce riu.  Voc est dando o golpe do ba em Matt, e ainda por cima se atreve a me dar lies de moral.
	Se voc insistir nessa conversa idiota, chamarei a polcia.
	E, naturalmente, voc pretende tambm contar tudo a Alice, certo?
	Pode apostar que sim.
	Ela no vai acreditar.
	O pior  que voc tem razo  Kristi olhou-o com desprezo.
	Vou lhe dizer uma coisa, garota: no  bom se meter
com Bruce Kline.

CAPITULO X

Na manh seguinte, Kristi tentou falar com Matthew por vrias vezes. Mas, tanto na casa como no escritrio, a resposta que recebia era sempre a mesma: Matthew no estava, ou no podia atender.
Fechada em sua sala particular na M & K, Kristi passou o dia praticamente em total inatividade. E foi com um suspiro de alvio que viu chegar s seis horas da tarde.
Pegando a bolsa, preparou-se para sair. E ficou surpresa ao ver que Mary ainda estava na loja.
	Ainda no foi para casa, mame?
	No fui... E no vou. A menos que voc me conte o que est acontecendo.
	Por favor, mame, a ltima coisa que desejo fazer neste momento  conversar.
Mary acariciou-lhe os cabelos.
	Olhe s para voc, querida. Est uma pilha de nervos.
	S preciso ir para casa, descansar um pouco. Amanh estarei melhor.
	Sinto muito, mas no posso deix-la sair, nesse estado.
 Mary trancou a porta da loja e, conduzindo a filha pelo brao, a fez sentar-se. Vamos, desabafe com sua velha me.
Kristi no se conteve e comeou a chorar. Mary esperou que ela se acalmasse e ento encorajou-a.
	s vezes  bom falar sobre os problemas. Isso pode ajudar.  Aps uma pausa, indagou:  Aconteceu algo ruim entre voc e Matthew. Foi isso, no?
Kristi aquiesceu, soluando.
	Fale, querida. Sei que se sentir melhor, depois.
Num impulso, ela narrou tudo o que ocorrera, desde a tarde anterior, quando Bruce a abordara  sada da loja. Mary ouvia tudo com uma preocupao crescente. No final, ficou pensativa por um longo momento e s ento aconselhou:
Voc tem que explicar tudo a Matthew, o mais depressa possvel. Claro que ele deve estar muito magoado, mas no h nada que uma boa conversa franca no possa esclarecer.
	Matthew est me evitando, mame  Kristi lamentou-se.  Oh, meu Deus, ele deve estar pensando coisas horrveis a meu respeito.
	Ento, v correndo contar-lhe a verdade.
	Como posso fazer isso, se Matthew se nega a falar comigo?
	Mas deve existir um jeito..  Mary consultou o relgio.  A que horas ele sai do escritrio?
	As seis.
	Ento, no adianta voc ir at l. Afinal, so quase seis e quinze, e o trnsito est pssimo.  Com ar decidido, Mary sugeriu:  Por que no vai at a casa dele?
	E se Matthew no quiser me receber?

	Se voc se apressar, chegar l antes dele. Afinal, a manso Stewart no fica muito longe daqui. E Matthew, que trabalha no centro da cidade, ter de fazer um percurso bem mais longo do que o seu, para chegar em casa.  Beijando-a carinhosamente, Mary tentou anim-la:  Coragem, menina. No se deixe abater desse jeito.
	Est bem, mame.  Kristi ergueu-se.  Eu irei at l.
	 assim que se fala.
	Obrigada pela fora  Kristi agradeceu, a caminho da porta de sada.
	Ligue mais tarde, para me dar notcias. E boa sorte.
Sentindo-se invadida por uma onda de esperana, Kristi dirigia seu pequeno escort at a manso Stewart. Agora, tinha certeza de que aquele pesadelo terminaria, e tudo voltaria a ficar bem, entre ela e Matthew.
Apesar do trnsito intenso, ela fez o trajeto com relativa rapidez. Com uma exclamao de alvio, constatou que o carro de Matthew no estava no ptio da manso. Isso significava que ele ainda no havia chegado.
Kristi desligou o motor. Agora, era s esperar.
No foi preciso aguardar por muito tempo. Depois de uns quinze minutos, viu o BMW se aproximando. Saltando do veculo, Kristi fez um intenso esforo para normalizar a respirao. Seu corao batia to forte, que ela mal conseguia falar.
	Matthew  ela abordou-o, ao v-lo descer do carro.  Enfim consegui encontr-lo. Preciso tanto conversar com voc.
Ele estava to abatido, que Kristi ficou penalizada. Mas, nos profundos olhos azuis, havia um misto de mgoa e revolta, que a fez estremecer.
	No temos nada a nos dizer  ele respondeu, friamente.  Afinal, tudo j est to claro.
Kristi segurou-lhe o brao:
	Voc no entende? Eu tenho de lhe explicar o que houve.
	Dispenso as suas mentiras, srta. Beeler. Vi com meus prprios olhos e... Sabe de uma coisa? Acho que foi melhor assim. Se algum me dissesse que voc era capaz de se envolver com um canalha como Bruce, eu jamais acreditaria.
 Com um sorriso cheio de amargura, concluiu:  Como voc pode ver, no era apenas Alice que estava cega de amor.
O desespero cresceu no ntimo de Kristi.
	Matthew, sei que voc tem todos os motivos do mundo para pensar mal de mim. Mas, acredite, as coisas no so o que parecem.
Ignorando essas palavras, ele retrucou, agressivo:
	O que  que voc e Bruce andaram planejando, afinal? Queriam apoderar-se da fortuna dos Stewart?
	Claro que no  ela defendeu-se, horrorizada.  Isso jamais me passou pela cabea!
Mas Matthew no a ouvia:
	Vou lhe dizer uma coisa, Kristi Beeler:  quase certo que Bruce conseguir o que quer. Mas voc, no. Felizmente, no sou to ingnuo quanto Alice.
	Voc no sabe o que est falando!  ela exclamou, no auge da exasperao.
	Pobre Alice...  Matthew continuou.  Tentei contar a ela sobre voc e Bruce, hoje de manh. Mas foi intil. Aquela tolinha vai cair nas garras do lobo e nada no mundo poder impedir esse fato.
	Como pde?  Kristi fitou-o, com os olhos rasos de lgrimas.  Como pde pensar que sou igual a Bruce?
	De fato, fiquei chocado quando descobri isso. Realmente, voc conseguiu me enganar direitinho. Se voc no tivesse aproveitado o horrio de minha reunio, ontem, para dar uma escapadinha com Bruce, eu nunca saberia da verdade.
	Eu no sou igual quele mau-carter  Kristi gritou, com voz trmula.  Ele me forou e...
	Oh, claro  Matthew a interrompeu, com um sorriso sarcstico. Vi muito bem o quanto ele a estava... Forando.
	Ele estava me ameaando, Matthew. Deve ter visto quando voc se aproximou e por isso resolveu fazer aquele jogo sujo.
	No diga...
	Juro que foi assim. Ele me beijou de repente e eu no consegui reagir de imediato.
	Bela verso dos fatos, que voc arrumou... Foi Bruce quem lhe sugeriu este libi, para enganar o idiota do Matt?
Ofegante e desesperada, Kristi implorou:
	Voc tem que acreditar em mim. Por favor, querido. Em nome de tudo o que houve entre ns...
Ele riu, com desprezo:
	Voc deveria ter pensado nisso, quando resolveu se unir a Bruce, nesse jogo sujo.  Mudando subitamente de tom, ele indagou:  Oh, Kristi... Por que fez isso comigo? Por que me fez acreditar de novo no amor? Voc sabia dos meus sofrimentos no passado. E no teve o menor escrpulo em me enganar novamente.
.  Eu no tra voc, Matthew. Oh, Deus, deve haver um jeito de eu lhe mostrar a verdade.
	Voc j mostrou. E, agora, ser que pode me fazer um favor?
	Voc sabe que pode me pedir o que quiser, Matthew.
	Ento, desaparea de minha vida. Deixe-me em paz.
	Matthew...
Voltando-lhe as costas, ele afastou-se e entrou no BMW. Manobrando o veculo, entrou no ptio da manso. Kristi no teve outra alternativa, seno partir.
Matthew entrou em casa e, para seu total desagrado, encontrou Bruce na sala de estar.
	Nossa, cunhado...  Bruce o provocou.  Que cara de enterro  essa?
	V para o inferno.
	O que h, parceiro? Andou tendo problemas com sua namoradinha?
Matthew encarou-o com uma expresso ameaadora:
	Cale a boca. Se voc fizer mais uma provocao, vou me esquecer que sou um cavalheiro.
Bruce quis ignorar o aviso, mas no tardou a compreender que Matthew falava srio. Com um sorriso forado, aquiesceu:
	Est bem. Vou ficar aqui, quietinho, esperando por minha futura esposa.
Matthew no respondeu. Caminhou em direo  escadaria e subiu rapidamente os degraus. Nunca, em toda a sua vida, sentira-se to arrasado.
Kristi no foi trabalhar, nos dias que se seguiram. Uma profunda depresso a dominava, roubando-lhe a vontade de viver. De um momento para o outro, seu sonho de amor transformara-se num terrvel pesadelo.
Felizmente, podia contar com a me. Tinha falado com ela por telefone, pedindo-lhe que cuidasse de todos os compromissos da M & K. Sabia que, agindo assim, estava sobrecarregando Mary. Mas no lhe restara outra sada.
Kristi alimentava-se mal, e passava as noites insone. S conseguia adormecer por exausto, depois de chorar muito e lamentar a felicidade perdida.
O mundo j no tinha significado algum.
O tempo transcorria com uma lentido angustiante e Kristi nada fazia para reagir.
Certa tarde de sbado, porm, ela verificou a despensa e constatou que precisava fazer algumas compras. Mas a simples ideia de ir ao supermercado a aterrorizava. No queria ver ningum, no queria sequer pr os ps na rua.
Mas o que fazer? Era preciso comprar ao menos alguns alimentos bsicos.
Assim, Kristi no teve outro remdio, seno tomar uma ducha rpida e sair.
Vestiu jeans e um suter claro, calou um par de tnis e guardou a carteira no bolso. Escovou os cabelos e mirou-se no espelho. Uma exclamao de horror brotou-lhe dos lbios, ao deparar com sua imagem refletida.
Seu rosto transformara-se numa mscara de tristeza e abandono, marcado por profundas olheiras. Estava plida, com uma aparncia doentia. E j no se parecia, nem de longe, com a mulher vibrante e alegre de alguns dias atrs.
	No importa  ela murmurou. Para que preocupar-se com a aparncia, se o homem que amava dissera-lhe adeus?
Kristi desceu  rua e entrou em seu escort. Acionou o motor, mas ele se recusava a funcionar. Depois de vrias tentativas, ela acabou desistindo e saltou, batendo a porta com violncia.
O jeito era caminhar a p, at o supermercado, que por sinal no ficava muito longe.
A tarde estava magnfica, com um cu muito azul e uma brisa suave. Aos poucos, quase sem perceber, Kristi comeou a se sentir melhor.
Ao passar por uma praa, viu algumas crianas brincando alegremente. A vida continuava a despeito da tristeza que a invadia, ela concluiu, com um triste sorriso.
Por fim chegou ao supermercado. Mas a agitao do ambiente irritou-a bastante.
"Parece que todo mundo resolveu fazer compras justamente agora", pensou, aborrecida. Mas, j que estava ali, o jeito era aguentar a situao, e fazer as compras o mais depressa que pudesse.
Estava na fila do caixa, quando algum tocou-lhe o ombro. Voltou-se e deparou com Rose-Marie, que saudou-a com efuso:
	Kristi! Que coincidncia encontr-la aqui. Liguei nessa semana para a M & K, mas sua me informou-me que voc tinha tirado umas frias.
	De fato  ela aquiesceu, forando um sorriso. Estava contente por rever Rose-Marie, mas sentia-se to deprimida, que no desejava conversar com ningum.  Eu... afastei-me por alguns dias.
Rose-Marie fitou-a com um olhar carinhoso, mas preocupado.
	Est... Tudo bem com voc?
	Suas compras, por favor?  pediu a garota do caixa.
Kristi pagou as compras e esperou que Rose-Marie fizesse o mesmo. Ento despediu-se:
	Foi um prazer encontr-la. At qualquer dia, Rose-Marie.
	Por que no tomamos um caf, ali em frente?  a outra sugeriu.  Assim, poderemos conversar um pouco.
	Agradeo, mas vamos deixar para um outro dia, est bem?  Kristi recusou, num tom polido.
Rose-Marie aquiesceu e, saindo com Kristi para o ptio do supermercado, perguntou:
	Voc veio de carro?
	No. Estou a p. Moro a cinco quarteires daqui.
	Que tal uma carona?  Rose-Marie ofereceu.
	No, obrigada.
A modelo fitou-a com sincera preocupao:
	Ei, o que h com voc? Est to abatida...
	Problemas pessoais  Kristi respondeu, com voz trmula.  Olhe,- voc vai me desculpar, mas eu realmente preciso ir.
	Por que no conversamos um pouco?  Rose-Marie insistiu.  s vezes, isso ajuda.
Os olhos verdes de Kristi inundaram-se de lgrimas. A modelo abraou-a, afetuosamente.
	Querida, no fique assim.
	Quero ir embora  ela balbuciou.
	Deixe-me ao menos tentar ajud-la.
	Ningum pode me ajudar  Kristi afirmou, amargamente. As compras caram-lhe das mos, espalhando-se pelo cho.  Oh, Deus, como sou desastrada.
Rose-Marie rapidamente ajeitou as compras de volta na sacola e, num tom decidido, anunciou:
	Vou lev-la at sua casa.
Kristi quis protestar, mas compreendeu que seria intil. Carinhosamente, Rose-Marie conduziu-a at um jipe.
	Entre  ela convidou, abrindo a porta para Kristi. Acionando o motor, gracejou:  Prepare-se para a decolagem, garota. L vamos ns. Agora diga-me onde voc mora.
Kristi deu-lhe o endereo e mergulhou num profundo silncio.  certa altura, porm, viu que Rose-Marie desviou-se da rota.
	Voc deveria ter seguido em frente  disse Kristi.  Agora, ser preciso contornar o quarteiro e tomar de novo a avenida.
	Conheo a rua onde voc mora  Rose-Marie respondeu.
	Mas est pegando o caminho errado.
	Eu sei.  Rose-Marie fitou-a por um instante e voltou a concentrar-se na direo.   que abriram uma casa de ch logo ali adiante. E achei que seria uma tima ideia irmos at l.
	Oh, no  Kristi protestou.  Eu realmente prefiro ir direto para casa.
	Certo. Eu a deixarei l, depois do nosso ch. 
	Mas no quero tomar ch  Kristi reclamou.  No quero nada...
	A  que est o problema: voc no quer nada... Isto se chama depresso, sabia? E no  nada bom para a sua sade.
	Que se dane a minha sade  Kristi exclamou, exasperada. Ento, esforando-se para reassumir o controle, acrescentou:  Escute, querida, eu sei que sua inteno  a melhor do mundo... Estou vendo que voc est ansiosa para ajudar, mas...
	Voc agradece a minha boa vontade, mas no quer ir a lugar algum  Rose-Marie completou.  Certo?
	Exato.
	Este  o principal sintoma da depresso: a pessoa se sente to mal, que no tem foras para lutar contra o desnimo. Mas  preciso reagir, minha amiga. Afinal, voc  uma garota to cheia de vida...
	Minha vida no tem mais sentido  Kristi sentenciou, num fio de voz.
Voc est sofrendo muito e, por isso, tudo parece escuro
 sua frente. Mas essa fase acabar passando, sabe, se voc fizer um esforo.  Rose-Marie estacionou em frente  casa de ch.  Vamos, querida. Prometo-lhe que se sentir melhor, depois de uma boa xcara de ch com biscoitos caseiros.
Rose-Marie escolheu uma mesa a um canto e fez os pedidos a uma garonete simptica, de traos orientais.
Sem nenhuma vontade, Kristi provou um biscoito e sorveu um gole da bebida fumegante.
	Que tal?  Rose-Marie sorria, procurando anim-la. 	Este ch se chama cachamai. E feito com vrias ervas aromticas. Vem da Argentina, sabe?
Kristi aquiesceu com um gesto de cabea.
	Sabe por que lhe telefonei, outro dia? Queria convid-la para minha festa de noivado, que ser daqui a duas semanas, no Flag Club.  Kristi no respondeu e ela prosseguiu.
	Estou to feliz, minha amiga. Acho que enfim encontrei o homem de minha vida.
	Fico feliz por vocs  disse Kristi.  E desejo-lhes toda a sorte do mundo.
	Obrigada. Podemos contar com sua presena, na festa?
	Talvez...
	Ah, voc tem que me prometer que ir.
Kristi encarou-a com uma expresso angustiada. Quis dizer algo, mas as palavras morreram-lhe na garganta e ela comeou a chorar.
	Querida...  Rose-Marie inclinou-se sobre a mesa.  Por favor, no fique assim. Fale comigo, desabafe a mgoa que est oprimindo seu corao.
Kristi relutou em abrir-se, mas compreendeu que podia confiar na bondosa Rose-Marie. Com a voz embargada pelas lgrimas, exps a situao, sem ocultar sequer um detalhe. Ento foi acometida por uma nova crise de choro.
	Que crpula, esse tal Bruce  a modelo comentou, indignada.  No acredito que existam pessoas assim, to inescrupulosas. Enfim, no sei se devemos odi-lo, ou lament-lo. Pois s algum muito infeliz poderia agir com tanta frieza.
	Claro que ele  infeliz  Kristi concordou, por entre as lgrimas.  E agora vai fazer a infelicidade de Alice, depois de ter destrudo minha relao com Matthew.
	Um momento.  Rose-Marie assumiu uma expresso de determinao.  Ele ainda no venceu a parada. E, se depender de mim, no conseguir faz-lo.
Kristi fitou-a sem entender. E surpreendeu-se ao v-la sentenciar:
	Ns duas daremos uma lio a Bruce. Afinal, ele ainda no se casou com Alice.
	Por enquanto, no. Mas esse casamento vai acontecer, pode apostar. Quanto a mim e Matthew, tambm j no temos nenhuma chance de reconciliao. Como voc pode ver, Bruce ganhou o jogo.
	Vamos pensar primeiro em voc e Matthew... Voc no acha que est entregando os pontos muito facilmente?
	Facilmente?  Kristi repetiu, chocada.  Eu tentei, Rose-Marie. Fiz de tudo para que Matthew me ouvisse. Mas ele simplesmente se recusa a acreditar em mim. J foi ferido uma vez, e  evidente que ficou traumatizado. O maior medo de Matthew era ser trado. E agora, ele est convicto de que eu...  Mais uma vez, as lgrimas a impediram de concluir a frase.
	Calma  Rose-Marie recomendou.  Deve haver um jeito de resolver essa situao.
	Impossvel  Kristi discordou, com ar derrotado.  No tenho outra sada, seno...
	Conformar-se?
	Infelizmente, sim. Estou num beco sem sada, esta  a pura verdade.
	Minha me costuma dizer que a nica coisa para a qual no h remdio  a morte. E eu concordo plenamente com ela  Rose-Marie contraps.  Portanto,  melhor voc vencer esse desnimo e ir  luta.
	Mas como?
	Vamos pensar. A primeira pergunta que devemos fazer  a seguinte: existe alguma maneira de Matthew acreditar em voc?
	Ele teria de me ouvir... Mas isso est fora de cogitao.

	Muito bem, ento vamos excluir a hiptese de voc tentar explicar-se novamente. Qual seria o outro jeito dele descobrir a verdade?
	S se o prprio Bruce contasse a ele... Mas  claro que Bruce jamais far isso  Kristi concluiu, desanimada.  No adianta, Rose-Marie.
	Ora, no seja to derrotista. Tome mais um pouco de ch e procure raciocinar comigo.
Kristi tentou pensar com clareza, mas realmente no acreditava que Rose-Marie pudesse encontrar uma sada.
	Vamos, querida, faa um esforo  a outra encorajou-a.
	No d  Kristi lamentou-se.  Oh, meu Deus... Se eu pudesse voltar no tempo, naquela maldita tarde em que Bruce me procurou... Se pudesse ter gravado as ameaas que ele me fez! S assim Matthew acreditaria em minha inocncia.
	 isso!  Rose-Marie quase gritou.  Puxa vida, voc acaba de encontrar a soluo!
	Como assim?  Kristi indagou, confusa.
	Voc achou a sada, minha amiga. Voc acaba de resolver seu problema.
	No estou entendendo nada. Pois voc compreender perfeitamente.  Rose-Marie sorria, com uma expresso de triunfo.  Agora me oua com ateno e pare de fazer essa carinha triste. O plano  muito simples...

CAPITULO XI

Na segunda-feira pela manh, depois de consultar o catlogo telefnico, Kristi ligou para o escritrio onde Bruce trabalhava e pediu para falar com ele.
	Que surpresa, gatinha.  Bruce atendeu logo depois.
	Voc nunca me telefonou.
Controlando a vontade de mand-lo ao inferno, ela forou um tom amvel:
	Preciso falar com voc. Poderamos nos encontrar na M & K, no final da tarde de hoje?
	Do que se trata?
	Assunto particular. Voc vai ou no?
	Depende...
Kristi quase desligou o telefone. Mas no podia fazer isso. Aquela era a nica chance de recuperar sua felicidade e por nada no mundo ela a perderia.
	Depende de qu?  Kristi perguntou, controlando a raiva.
	Do quanto voc quer me ver, oras. Achei que tinha ficado furiosa comigo, depois do nosso ltimo encontro.
	Falaremos disso quando nos encontrarmos pessoalmente 	Kristi respondeu, esquiva.  E ento, o que me diz?
Ele riu, daquela forma atrevida que tanto irritava Kristi:
	Ei, pelo visto voc est realmente ansiosa para me ver.
	Estou.  Foi a resposta seca de Kristi. O que, alis, no era de todo mentira. "Preciso v-lo sim, Bruce Kline... Mas por um motivo bem diferente do que voc est pensando", ela acrescentou, em pensamento.
	Ser que voc est pretendendo estreitar nossas relaes, doura?
Nem que voc fosse o ltimo homem sobre a terra", Kristi retrucou, mentalmente, antes de responder:
	S lhe falarei sobre o assunto que tenho a tratar, se voc for  M & K, hoje  tardinha.
	Voc venceu, doura  ele concordou, por fim.
"Ainda no, Bruce Kline. Mas se tudo der certo, voc em breve ser desmascarado", Kristi pensou. E foi com um intenso alvio que o ouviu dizer:
	Eu estarei l. Que tal s seis?
	Para mim est perfeito. Toque a campainha da loja, pois a porta estar trancada.
	Nossa, pelo visto teremos uma conversa realmente... Particular.
"Voc nem imagina o quanto, Bruce Kline."
	Estarei a sua espera.  E Kristi desligou.
Eram cinco e meia da tarde, quando ela chegou  loja, junto com Rose-Marie. Mary e a secretria, Jane, j haviam sado.
Retirando da bolsa um pequeno gravador, Rose-Marie verificou as pilhas e a fita.
	Aqui est, Kristi. Vamos coloc-lo na primeira gaveta. E no se esquea de que Bruce deve sentar-se bem aqui  disse, colocando uma cadeira ao lado da mesa da recepo.  Vou deixar tudo preparado para a gravao. Voc s ter de soltar a tecla pause, assim que der incio  conversa.
	E se Bruce perceber?
	O plano ir por gua abaixo.  Rose-Marie pensou por alguns instantes e decidiu.  Vamos fazer assim: voc soltar a tecla pause logo que Bruce tocar a campainha. A partir desse momento, tudo o que vocs falarem ser gravado. Mas no se esquea de trazer Bruce para esta cadeira, certo?
	Tudo bem.
	Estarei escondida na cozinha. Se aquele cretino ousar molest-la,  s gritar que eu chamarei a polcia. Entendeu bem, querida?
Kristi sorriu, tensa:
Voc j repetiu essas explicaes pelo menos um milho de vezes, amiga.
Est bem, no direi mais nada. Agora procure relaxar e lembre-se de que esta  sua nica chance.
	 s nisso que tenho pensado, desde sbado.
Poucos minutos aps as seis, a campainha soou no interior da loja. Rose-Marie precipitou-se para a cozinha e Kristi, depois de acionar o gravador, correu a abrir a porta.
	Al, gatinha  Bruce sorriu, provocante.  Tal como combinamos, aqui estou.
	Entre. Precisamos conversar.
	Sim, voc j me disse isso antes. E confesso que estou morto de curiosidade.
	Sente-se.  Ela indicou a cadeira junto  mesa da recepo, mas Bruce preferiu acomodar-se numa poltrona, prxima  entrada da loja.
	Aqui est bem para mim, doura. Essa poltrona  bem confortvel... Agora fale, menina. Por que me pediu para vir aqui?
Kristi estremeceu. No podia permitir que Bruce ficasse ali, pois o gravador no conseguiria captar o teor da conversa. Demonstrando uma firmeza que ela estava longe de possuir, ela tentou faz-lo mudar de ideia:
	Se no se importa, eu gostaria de tratar desse assunto sentada  minha mesa.
	Tudo bem  ele concordou, sem nada desconfiar.  Farei o que voc quiser, gracinha.
Com uma intensa sensao de alvio, Kristi apontou-lhe a cadeira junto  mesa da recepo. Ele sentou-se e sorriu:
	Agora, que estamos devidamente acomodados, seja uma boa menina e exponha o assunto.
Reunindo todas as foras que possua, Kristi iniciou a conversa.
	Como voc vai indo, com Alice?
	As mil maravilhas, como voc bem pode imaginar  ele respondeu, confiante.
	Ela gosta muito de voc.
	Est caidinha por mim. Para dizer a verdade, no tive nenhum trabalho para conquist-la. A coitada estava to carente, que foi logo se apaixonando. E, assim, eu tirei a sorte grande.
	Mas voc no gosta de Alice nem um pouquinho? No sente ternura ou afeto por ela?
	Eu gosto de dinheiro, meu bem. E Alice tem tudo o que preciso: fortuna, nome, posio social... E ainda por cima ser uma esposa dedicada e fiel. Assim, poderei realizar os meus planos.
	E que planos so esses, Bruce?
	Ora, os de todo mundo: quero subir na vida, tornar-me rico e poderoso como o idiota do Matt.	 
"Matthew no  um idiota", Kristi respondeu, em pensamento. "E nem todas as pessoas so to inescrupulosas como voc, a ponto de acharem que as nicas coisas que contam na vida so poder e dinheiro. Alm do mais..."
Kristi conteve a indignao e repreendeu-se mentalmente. No podia se dar ao luxo de chocar-se com Bruce. Precisava faz-lo falar. Era para isso que estava ali.
	Ento, voc quer o dinheiro e o nome dos Stewart  ela comentou, no tom mais casual que pde encontrar.  E isso, no?
	O que mais poderia ser? Alice s vezes me deixa exasperado, sabe? Todas aquelas manias de criana mimada so demais para mim. Mas, por outro lado, eu a tenho em minhas mos.  Bruce fez uma pausa.  Foi para falar de Alice que voc me convidou para vir aqui?
	Claro que no  Kristi i'espondeu, achando que a conversa j fora suficiente para provar as pssimas intenes de Bruce, a respeito de seu casamento. Agora, chegara o momento de cuidar da segunda parte do plano. E ela o fez, com uma habilidade que chegou a surpreend-la.  Na verdade, eu queria falar sobre ns.
	tima ideia, doura. Deixe Alice para l...
Bruce inclinou-se e tentou segurar-lhe a mo, .que Kristi retirou rapidamente.
	V com calma, rapaz. A conversa ainda no terminou.
	Hum...  Ele riu.  Como voc  difcil.
Kristi tomou flego. Ento abordou o assunto:
	Diga-me, Bruce, naquela tarde em que voc veio aqui...O que, exatamente, estava pretendendo?
Eu queria avis-la para ficar fora do meu caminho No gostei nada de saber dos conselhos idiotas que voc deu a Alice. E achei que tinha de dar-lhe uma advertncia.  Ele piscou-lhe um olho, com uma expresso marota.  Mas tambm havia um outro motivo...
	E qual era?
	Bem, eu queria estreitar minha relao com voc. Entende o que digo, doura?
	No muito. Por que no me explica melhor?
E que voc mexeu comigo de um jeito... Desde a primeira vez em que a vi, senti que podia haver algo mais entre ns.
	Compreendo. E quando voc me beijou, ali na calada... Foi exatamente para que Matthew pensasse que de fato ns... Tnhamos uma relao mais ntima. Certo?
Bruce riu, divertido:
	E... Eu no resisti  tentao de pregar uma pea naquele idiota. Voc estava de costas e no poderia ver o carro de Matthew... Mas eu sim. Da, pensei: Bruce, se voc agarrar essa gatinha agora, ela ficar to assustada que no conseguir reagir. E esses poucos segundos de confuso sero suficientes para que Matthew caia na armadilha.  Ele ria tanto, que teve de interromper-se por alguns instantes. Ento, num tom mais srio, prosseguiu:  Claro que foi uma jogada arriscada. Se Matthew houvesse descido do carro para tomar satisfaes, ele teria visto voc me repelir e compreenderia meu jogo. Eu acabaria em maus lenis... Mas a vida  assim, doura. Temos de contar com a sorte e com o azar.
	E a sorte estava do seu lado  Kristi constatou, contendo a indignao.
	Sou um privilegiado do destino, sabe? Sempre acerto em tudo o que fao, no sei ao certo por que...
"Pois desta vez voc se meteu numa pssima encrenca", ela retrucou, em pensamento.
	Voc disse que queria falar de ns  ele inclinou-se na direo de Kristi.  Portanto, vamos esquecer o meu pobre cunhadinho. Assim, poderemos nos ocupar de coisas mais... Estimulantes.
	Fim da linha, Bruce Kline.  Kristi levantou-se.  Nossa conversa terminou.
	Como?  ele reagiu, confuso.
	Voc j disse tudo o que eu precisava ouvir  Kristi afirmou, invadida por uma onda de confiana. Enfim tinha conseguido a prova irrefutvel de sua inocncia.
	No estou entendendo.  Ele fitou-a com desconfiana.  O que voc queria, afinal?
	Confirmar o que eu sempre soube a seu respeito: que voc  um homem vazio e sem escrpulos. Um homem que no se importa em brincar com os sentimentos de uma garota ingnua como Alice, desde que isso satisfaa seus objetivos sujos.
Bruce deu de ombros:
	Pense o que quiser. O que falamos aqui, ficou apenas entre ns. Matthew j no acredita em voc e, Alice, muito menos. Portanto, pare com esse sermo imbecil.
	V embora, Bruce Kline  ela ordenou.  Sua presena s me causa nojo.
	Voc me fez de palhao. Chamou-me aqui, deu-me esperanas de uma intimidade entre ns e...
	No lhe dei esperana alguma. S disse que precisava conversar com voc.
	Pois voc perdeu o seu tempo e o meu. Poderamos ter feito coisas bem mais interessantes, em vez de ficar falando sobre os idiotas dos Stewart.
	Os Stewart tm algo que voc desconhece: carter.
	Que fiquem com seu precioso carter, desde que me dem seu dinheiro.
	Muito bem.  Kristi fitou-o com desprezo.  Voc acaba de se desmascarar, confessando seu jogo sujo.
	No brinque comigo, garota.  Ele ergueu-se e segurou-a pelo brao.
	Solte-me  Kristi ordenou, fuzilando-o com os olhos. Bruce no obedeceu e ela elevou a voz:  Voc est me machucando. Fora daqui, antes que eu perca de vez a pacincia.
	Pois voc pode perder muito mais do que isso, se continuar desafiando o velho Bruce  ele retrucou, com um olhar ameaador.
	Saia!  Kristi gritou.
Rose-Mare precipitou-se da cozinha para a sala da recepo. Encarando Bruce com firmeza, anunciou:
	Acabo de ligar para a polcia, comunicando que h um homem estranho aqui na loja. Se voc no sair agora, ter de explicar-se a eles.
Bruce olhou de uma para a outra:
	O que significa isso?
	Caia fora!  disse Rose-Marie. Num tom sarcstico,-prosseguiu: Um homem de sua posio, prestes a desposar uma Stewart, no deve se expor a escndalos. Portanto,  melhor seguir o meu conselho e desaparecer daqui.
	Ora, vo para o inferno, vocs duas!  ele praguejou, antes de sair a passos largos.
	Conseguimos  Kristi murmurou.
	Sim, minha amiga.  Rose-Marie retirou o gravador da gaveta e desligou-o.  Agora, irei at a manso dos Stewart e...
	No  preciso  Kristi a interrompeu.  Eu mesma levarei a fita para Matthew e Alice.
	Acha que Matthew concordar em receb-la?  Rose-Marie argumentou, incrdula.  Ele ainda est muito magoado com voc, querida. Portanto,  melhor que eu mesma cuide disso. Afinal, voc j ifez sua parte.
	, acho que voc temj razo  Kristi foi obrigada a concordar.  E quanto, a rrjim? O que devo fazer agora?
	V para casa e espere belos prximos acontecimentos. O pesadelo acabou, minha amiga.
Ambas j estavam de sada, quando Kristi lembrou-se:
	Eu no posso ir, agora.!Tenho de esperar pela polcia e explicar tudo.
	Eu estava blefando. Claro que no chamei a polcia. Disse aquilo apenas para assustar Bruce.
Kristi riu:
	Voc  impossvel, Rose-Marie.
As duas se despediram com um forte abrao.
	Como poderei agradec-la pelo que fez por mim?  Kristi a fitava, emocionada.
	Voc me deu sua amizade e confiana. O que mais eu posso pedir?
Segurando-lhe as mos, Kristi segredou:
	Sabe, se eu e Matthew voltarmos a nos entender...
	Disso, eu tenho certeza.
	Tomara. E se algum dia nos casarmos, quero que voc e Jefferson sejam meus padrinhos.
	Ser uma honra, querida  Rose-Marie aceitou, com um sorriso comovido.
Pela primeira vez, depois de muitos dias, Kristi sentia-se com boa disposio. Ao chegar em casa, tomou um banho e jantou com bastante apetite.
A esperana voltava a brilhar em seu corao de mulher apaixonada. Se tudo desse certo, Matthew voltaria de novo para seus braos. E a vida teria, de novo, um sentido mgico.
Eram nove da noite, quando Kristi vestiu a camisola e sentou-se no sof para assistir a um pouco de TV. O telefone continuava mudo, mas Kristi esperava que, a qualquer momento, a campainha soasse, anunciando a volta de Matthew... E de tudo o que ele significava.
A tenso e angustia dos ltimos dias j no a atormentavam. Mas o cansao acumulado ao longo das noites insones comeou a apoderar-se dela. E, assim, deitada no sof da sala,'Kristi adormeceu.
Acordou sobressaltada, com o rudo da campainha e algumas leves batidas na porta. Sonolenta, ela ergueu-se e consultou o relgio do vdeo, sobre a estante: eram quase duas da manh.
As batidas na porta continuavam e Kristi ergueu-se para atender. De passagem, desligou a televiso, que exibia um filme de western.
Ajeitando os cabelos em desalinho, ela espiou pelo olho mgico e viu Matthew. Abriu imediatamente a porta, com o corao aos saltos.
	Desculpe ter vindo a essa hora.  Ele a fitava, ansioso.  Talvez eu devesse ter telefonado, mas... A verdade  que no pude esperar mais nem um minuto para dizer que te amo, Kristi.
	Matthew...  Foi tudo o que ela conseguiu falar, tamanha era a emoo que a dominava.
	Ser que voc pode me desculpar pelas coisas horrveis que lhe falei?
	No tenho nada para desculpar, meu querido.  Kristi atirou-se em seus braos, apertando-o fortemente de encontro ao peito.
	Se soubesse como fiquei louco de remorsos, depois que sua amiga Rose-Marie colocou a fita para que eu e Alice ouvssemos!  ele confessou, com voz trmula de pura emoo.
 Minha vontade era vir correndo para c, mas voc pode imaginar o estado em que Alice ficou. Assim, eu tive de fazer-lhe companhia e confort-la, at que passasse a crise.
	Como est ela, agora?
	Conseguiu dormir, depois de tomar um calmante.
	Pobre Alice  Kristi suspirou.  Como deve ter sofrido, ao descobrir a verdade sobre Bruce.
	Antes assim. Ela  jovem e ter tempo de se recuperar. Algum dia encontrar seu verdadeiro amor.
	Ela  uma. garota adorvel e merece ser feliz.

	Claro que sim  Matthew concordou.  Mas, por enquanto, est muito abalada. Coitadinha... Depois que ouvimos a fita, olhou-me com tanto desespero, que eu nem soube o que fazer. De repente, ela parecia de novo a garotinha assustada, que corria para minha cama depois de um sonho ruim, procurando um pouco de aconchego e carinho.
	Matthew, eu s gravei aquela fita por que achei que seria o nico jeito de...
	Eu sei.  Ele tocou-lhe os lbios com a ponta dos dedos.  Sua amiga Rose-Marie j me explicou tudo. Oh, Kristi, perdoe-me por t-la comparado a Bruce. Como pude pensar que...
Agora era Kristi que o silenciava, tocando-lhe delicadamente os lbios.
	No diga mais nada, querido. Eu compreendi perfeitamente sua reao. Afinal, voc j tinha sido trado uma vez. Era natural que reagisse daquele modo e...
Um beijo apaixonado silenciou as palavras de Kristi. E o desejo acendeu-se em seu corao, com uma fora avassaladora.
	Pensei que o tivesse perdido para sempre  ela sussurrou.
	Agora estamos juntos de novo, querida. E nada no mundo poder nos separar.
vidos, ambos se buscavam entre carcias e palavras doces, cumprindo de novo os ritos da paixo. Era como se quisessem recuperar o tempo perdido, entre tantos desentendimentos.
Erguendo-a nos braos, Matthew levou Kristi para o quarto. E ali, entre os lenis macios, possuiu-a longamente.
O amor acontecia mais uma vez, com redobrada intensidade. E a vida ganhava uma nova dimenso.
Um breve sono arrebatou os amantes, proporcionando-lhes o descanso merecido.
Amanhecia, quando Kristi despertou. Olhou para o lado e deparou com Matthew, que sorria para ela. Uma onda de felicidade a invadiu. Sentia-se a mais completa das mulheres e nada mais desejava no mundo.
	Eu queria lhe falar sobre uma coisa  disse Matthew, tomando-lhe o rosto entre as mos.
	Sim, querido?
	Voc... Quer se casar comigo? Quer se tornar minha esposa, amiga, amante e companheira?
Fitando-o no fundo dos olhos, ela aquiesceu:
	Sim, Matthew. Voc  o homem com quem sempre sonhei.
	Ento, vamos cuidar disso logo.  Visivelmente emocionado, ele ainda tentou gracejar:  Conheo uma loja de consultoria matrimonial. Chama-se... M & K J ouviu falar dela?
	No...  Kristi respondeu, com exagerada seriedade.
Ambos riram, felizes e confiantes no futuro.
Matthew retomou o assunto:
	S gostaria de colocar uma condio... Ou melhor, um pedido.
	Qual?  ela perguntou, curiosa. 
	Quero que voc use, no nosso casamento, aquele vestido lindo com que desfilou, no Royal.
	O "Sonho de Maio"  Kristi murmurou, maravilhada. Mas  claro que vou us-lo, meu amor. Afinal, acho que o "Sonho" esteve mesmo esperando por mim, durante todos esses anos.
L fora, comeava a amanhecer.
	Um novo dia est raiando  disse Matthew.
	Uma nova vida  Kristi o corrigiu, tomando-o pela mo e conduzindo-o at a janela.
Um beija-flor brincava nas roseiras, l embaixo. Outros pssaros faziam uma intensa algazarra, nas copas das rvores que circundavam os fundos do edifcio.
	O mundo  lindo, no acha, Matthew?  Kristi perguntou, docemente.
	Sim, minha querida. O mundo  cheio de magias e beleza. Mas parece que s podemos perceber isso quando estamos tocados pelo amor.

FIM




